133/365 THE LURE

The Lure é uma voadora no peito, com os 2 pés e gritando.

É um filme polonês sobre 2 sereias que quando na terra, viram cantoras de uma banda numa boate malucona nos ano 80’s.

Imagine a pequena sereia num filme de terror, sendo que ela faz sexo, fica bêbada, canta e é meio do mal.

The Lure é um musical. Só que também é uma comédia. Mas principalmente é um filme de terror. Bem bizarro, bem punk, tudo misturado.

A história começa quando uns bêbados vão para a praia numa madrugada cantar e 2 sereias aparecem e cantam para eles perguntando se elas devem ir para terra firme.

Daí já vemos as fofas, peladas e com pernas, no camarim da boate malucona, amparadas pela vocalista da banda do que deve ter sido a new wave polonesa. Quando o dono da boate, sentindo um cheiro forte de peixe, finalmente chega no camarim e vê as duas meninas nuas, percebe que eles não possuem nem vagina e nem ânus, ao que explicam que elas são sereias e para ele ver, jogam água em suas pernas que logo viram de volta os rabos de peixe enormes.

Elas são lindas, uma ruiva e uma morena, naturalmente sedutoras, cantam bem, obviamente, como toda sereia e começam a fazer backing vocals, só que elas são boas demais e já viram as queridinhas do lugar, viram cantores e stripers.

Só que no meio disso as coisas não são tão fofas e bacanas assim.

Primeiro que ninguém fica surpreso por elas serem sereias, é uma vibe bem normal, como se estivessem acostumados com isso.

No fundo elas que precisam se acostumar com o povo normal, comprar roupas e sapatos, aprender a se portar e principalmente, resistir a tentação de não estraçalhar e comer as pessoas, o que é bem difícil pra elas.

Fofas, né?

Elas encontram outro ser aquático que vive entre os normais e teve um chifre arrancado por um homem e de raiva arrancou o outro, tendo 2 cicatrizes lindas na testa.

Encontram uma policial locona que numa investigação se joga pra uma das sereias.

E uma delas se apaixona pelo baixista da banda, só que é avisada que se ela fizer a cirurgia de redesignação de perna, numa das cenas mais lindas do filme, ela vai perder a voz e virar espuma de água.

Depois de muita música, algumas piadas bizarras, um terror lindo, The Lure é  um filme coming of age, de amadurecimento, onde as sereias representam numa metáfora descaradas duas adolescentes entrando na vida adulta, tomando a primeira vodka, fumando o primeiro cigarro, fazendo sexo, menstruando, sofrendo abuso de adultos, mudando o corpo, exalando cheiros específicos, se apaixonando pela primeira vez e tudo mais a que tem direito.

Filmaço do mais estranho, que me deixou bem impressionado e meio de queixo caído com a ousadia da diretora, e minha nova ídola, Agnieszka Smoczyńska.

P.S. – desde 2015 quando li sobre esse filme que tento ver de qualquer maneira. Finalmente consegui, com a dica valiosa de um querido, procurando o torrent pelo título original dele. Sou lento de vez em quando.

116/365 PELES

Corra pra Netflix assistir o espanhol Peles.

Filminho espanhol bem estranho, Peles conta histórias de pessoas com deformações físicas (mas não só) que tentam viver em um mundo preconceituoso onde se julgam o livro pela capa.

Uma mulher com o cu no lugar na boca e a boca no lugar do cu; um homem que odeia as pernas e tenta se livrar delas para ser uma sereia; uma mulher sem os olhos que usa 2 cristais no lugar; um homem com a pele que parece que foi toda queimada; uma mulher com o rosto derretido; uma anã que realiza fantasias sexuais de clientes e quer ser mãe.

Junto a esses “freaks”, pessoas sem as deformações físicas mas que são também freaks de alma. Quando eles se juntam, as coisas funcionam. Ou quase.

O filme é bacana, não tem nenhum julgamento moral, muito pelo contrário. O diretor estreante, o espanhol Eduardo Casanova e produzido pelo diretor mais interessante do país, o doidão Álex De La Iglesia.

Pensando bem, consigo enxergar uma semelhança filosófica entre Peles e o americano Corra! (Get Out), como filmes do novo chamado terror sociológico.

Peles é uma puta crítica social sem metáforas, bem descarada mesmo, bem contada.

Peles rende tributo ao mestre Pedro Almodóvar, não só no roteiro com os freaks e desajustados, mas também esteticamente. A direção de arte de Peles é inteira, absolutamente inteira, em tons de rosa, lavanda, lilás. Todos os cenários, figurinos, objetos, tudo é nesse tom fofo pra contar histórias de pessoas nada fofas, em princípio.

Vendo Peles a gente acha que Almodovar é bem sutil, já que nesse filme a aura colorida e estranha é bem potencializada.

Uma única crítica pra mim é a fotografia do filme, tudo muito chapado e sem profundidade, o que é uma pena porque com os cenários do filme, as possibilidades eram imensas.

Mas Peles, como um neto, digamos assim, da primeira onda Almodovariana, diz a que veio. Não posso esperar qual vai ser o próximo filme dessa turma.