136/365 THE LAST FAMILY

Mais um filme polonês pra lista do ano, mais um ótimo filme pro topo da lista, The Last Family talvez seja um dos filmes que melhor misture o que é documentário e o que é ficção, graças ao belíssimo trabalho do diretor Jan P. Matuszyński.

O filme conta a história real de um famoso pintor polonês, Zdzislaw Beksinski, que em 1977 sob a cortina de ferro, em um país fechado, onde ele se escondia de visitas casuais da Gestapo, vive em seu apartamento com a esposa Zofia, a base da família, sua mãe e sua sogra idosas. E seu filho, Tomasz, bipolar, depressivo, quase esquisofrênico, suicida, que acabou de se mudar para um apartamento sozinho, mas que circula pela casa.

O filme tem como base as gravações em áudio e vídeo que Zdzislaw fazia incessantemente de sua família em sua casa.

Ao invés de focar na fama e genialidade do surrealista, o diretor e o roteirista Robert Bolesto preferiram fazer um filme que se passa basicamente dentro deste universo familiar tão peculiar, já que como vemos durante o filme, essa família, como toda família, é bem singular, principalmente pelo modo como o pintor lida com esses ao seu redor.

Vídeos originais são usados durante o filme em meio a recriações de situações onde apenas o áudio tinha sido gravado e isso faz com que a noção de real (documentário) e ficção tenha um sentido novo.

Zdzislaw Beksinski foi um pintor tão perdido na “burocracia comunista” que quando ele recebe uma encomenda de 12 quadros para entregar em um ano ao preço de 12 mil dólares, acha que todos os seus problemas estão resolvidos.

Principalmente como lidar com seu filho Tomasz, que apesar de todos os seus problemas, era um dj conhecido, fazia festas e tinha programa de rádio, sempre com novidades de rock inglês (ah, como isso me lembrou da minha adolescência na mesma época por aqui, quando os discos importados eram raridade) e também virou um tradutor de renome, como vemos numa cena dele em uma sala de alguma faculdade dublando em polonês o novo filme do 007 ao vivo.

E o grande ator Star Seweryn é o que leva o filme a um outro nível, incorporando um Beksinski de uma forma que muitas vezes eu demorava alguns momentos para saber que era o ator em uma cena recriada à perfeição e não um vídeo original do pintor.

Lindo demais.

133/365 THE LURE

The Lure é uma voadora no peito, com os 2 pés e gritando.

É um filme polonês sobre 2 sereias que quando na terra, viram cantoras de uma banda numa boate malucona nos ano 80’s.

Imagine a pequena sereia num filme de terror, sendo que ela faz sexo, fica bêbada, canta e é meio do mal.

The Lure é um musical. Só que também é uma comédia. Mas principalmente é um filme de terror. Bem bizarro, bem punk, tudo misturado.

A história começa quando uns bêbados vão para a praia numa madrugada cantar e 2 sereias aparecem e cantam para eles perguntando se elas devem ir para terra firme.

Daí já vemos as fofas, peladas e com pernas, no camarim da boate malucona, amparadas pela vocalista da banda do que deve ter sido a new wave polonesa. Quando o dono da boate, sentindo um cheiro forte de peixe, finalmente chega no camarim e vê as duas meninas nuas, percebe que eles não possuem nem vagina e nem ânus, ao que explicam que elas são sereias e para ele ver, jogam água em suas pernas que logo viram de volta os rabos de peixe enormes.

Elas são lindas, uma ruiva e uma morena, naturalmente sedutoras, cantam bem, obviamente, como toda sereia e começam a fazer backing vocals, só que elas são boas demais e já viram as queridinhas do lugar, viram cantores e stripers.

Só que no meio disso as coisas não são tão fofas e bacanas assim.

Primeiro que ninguém fica surpreso por elas serem sereias, é uma vibe bem normal, como se estivessem acostumados com isso.

No fundo elas que precisam se acostumar com o povo normal, comprar roupas e sapatos, aprender a se portar e principalmente, resistir a tentação de não estraçalhar e comer as pessoas, o que é bem difícil pra elas.

Fofas, né?

Elas encontram outro ser aquático que vive entre os normais e teve um chifre arrancado por um homem e de raiva arrancou o outro, tendo 2 cicatrizes lindas na testa.

Encontram uma policial locona que numa investigação se joga pra uma das sereias.

E uma delas se apaixona pelo baixista da banda, só que é avisada que se ela fizer a cirurgia de redesignação de perna, numa das cenas mais lindas do filme, ela vai perder a voz e virar espuma de água.

Depois de muita música, algumas piadas bizarras, um terror lindo, The Lure é  um filme coming of age, de amadurecimento, onde as sereias representam numa metáfora descaradas duas adolescentes entrando na vida adulta, tomando a primeira vodka, fumando o primeiro cigarro, fazendo sexo, menstruando, sofrendo abuso de adultos, mudando o corpo, exalando cheiros específicos, se apaixonando pela primeira vez e tudo mais a que tem direito.

Filmaço do mais estranho, que me deixou bem impressionado e meio de queixo caído com a ousadia da diretora, e minha nova ídola, Agnieszka Smoczyńska.

P.S. – desde 2015 quando li sobre esse filme que tento ver de qualquer maneira. Finalmente consegui, com a dica valiosa de um querido, procurando o torrent pelo título original dele. Sou lento de vez em quando.

“The Lure”, meu tipo de filme.

Sereias que se alimentam de coração humano, lindas e nuas e cantam numa boite polonesa nos anos de chumbo.

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“The Lure” se passa na Polônia comunista numa fantasia da diretora Agnieszka Smoczynska e segundo ela é sobre como ela se lembra dessa época de sua infância.

Sucesso em Sundance, não vejo a hora de assistir.