141/365 ANTES QUE EU VÁ

Antes Que Eu Vá é uma adaptação de um livro sucesso entre a molecada que conta a história do dia de uma patricinha chata de uma escola americana e suas amigas populares com todos os clichês que já vimos em 50 outros filmes.

Só que esse dia se repete e se repete e só ela percebe esse dia da marmota particular.

A premissa é boa: e se hoje fosse o único dia do resto da sua vida?

E essa repetição faz com que ela enxergue sua vida por uma outra perspectiva e tome decisões, algumas bem radicais, que ela nunca tomaria em sua vida normal.

O filme é uma mistura de O Feitiço do Tempo (Groundhog Day) com As Patricinhas de Beverly Hills e uma boa pincelada de Donnie Darko, que dá o pouco charme do filme.

O filme tem um roteiro quase bom, com poucos furos até,  já que num caso desses de muitas idas e voltas e mais voltas poderia acabar com a vida de qualquer roteirista. Mas o que me incomodou foi uma regra básica de volta no tempo: geralmente não se podem tomar decisões tão radicais imediatamente, você tem que mudar o curso do destino bem sutilmente. E o que falta nesse filme é sutileza. As decisões acontecem muito apressadamente e o que poderia ser bonito de se ver construído aos poucos, acaba sendo nos jogado na cara onde devemos engolir à força o que estamos assistindo.

Fora a Jennifer Beals, que faz a mãe da menina e uma outra atriz adolescente que fez a série horrorosa da Drew Barrymore morta viva da Netflix eu não conhecia ninguém do elenco, o que me deixou intrigado, com uma vibe indie num filme grande. Funcionou bem.

Neil Gaiman + Nicole + Cameron Mitchell + Elle = filme do ano.

How to Talk To Girls At Parties é um conto bem bom do Neil Gaiman onde uns aliens caem na Inglaterra nos anos 70 e viram punks. Ou mais ou menos isso.

John Cameron Mitchell, o gênio que criou Hedwig adaptou o conto e ontem lançou o filme em Cannes.

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As críticas estão sendo ótimas e até o meio do ano devemos ter o filme pra ver.

O elenco é animal: Nicole Kidman, Elle Fanning, Alex Sharp, Ruth Wilson, Matt Lucas, Joanna Scanlan, Elarica Gallacher.

E a trilha é dos meus preferidos Matmos.

140/365 PATERSON

Hoje um amigo veio me perguntar o que eu tinha achado de Paterson e eu percebi que não tinha escrito sobre o filme.

Falha minha de deixar de fora da minha lista um dos grandes filmes do ano.

Paterson é o nome de um motorista de ônibus que escreve poesia em seus momentos de folga e mora também na cidade de Paterson.

Ele leva uma vida bem tranquila, casado, tem sua rotina de acordar, toar café, ir trabalhar, volta pra casa, conversar com a mulher, leva seu cachorro para passar e para no bar para uma bebida antes de dormir.

E no meio disso tudo, escreve.

Observa.

Ouve.

Tentar colocar no papel as vidas que por ele passam e que sutilmente vão deixando marcas.

Sua mulher insiste para que ele mande seu caderno de anotações para alguma editora e ela reluta, diz que não está pronto, até que o destino toma conta de sua obra.

Paterson é vivido pelo ótimo Adam Driver, o feioso mais talentoso dos EUA, saído da porcaria que era a série Girls pra ganhar as telonas. Já fez Guerra nas Estrelas, Silêncio do Scorcese e esse petardo do Jim Jarmusch.

Sim, dirigido pelo mago indie Jarmusch, o filme é lindo, calmo, poético, tranquilo, com um ritmo totalmente peculiar e próprio e nos dá uma aula de cinema contemplativo em tempos de super heróis explosivos.

137/365 BRANQUINHA

Branquinha é o filme americano que mais deu o que falar ao estrear no Festival de Sundance em 2016.

O filme foi vendido como o novo Kids e na minha opinião, Branquinha é um pouco mais que isso.

O filme é muito bem escrito e muito bem dirigido por Elizabeth Wood e tem na atriz principal um grande trunfo.

Morgan Saylor se joga de cabeça no papel da jovem baladeira de NY, que está de férias do primeiro ano de faculdade e se muda de apartamento.

Na casa nova, se encanta pelo traficante da rua e a aproveitar o que pode, já que as drogas estão fáceis e a festa nunca termina.

A partir daí, o filme entra num turbilhão de balada, cocaína, sexo, maconha, crack, mais drogas, mais sexo explícito, até que o traficante namorado da Branquinha (do título) vai preso.

E ela faz tudo o que pode para tirá-lo da cadeia, o que quer dizer vender a cocaína dele pra levantar dinheiro, transar em troca de favor, ela é roubada, estuprada, apanha do traficante chefão e muito mais.

O filme é forte, pesadão e disse que não é o novo Kids, mas sim um próximo passo, já que o filme é escrito e dirigido por uma mulher e o foco é outra mulher e o périplo pelo inferno que ela passa por amor.

Ah, e tem na Netflix.

135/365 NEDS – JOVENS DELINQUENTES

Filmão de 2010 que só vi agora, Neds é um filme escocês que parece uma coisa e é outra (melhor) completamente diferente.

Neds parece uma comediazinha bacana sobre o gordinho bonitinho maior vítima de bullying na escola, em Gasgow nos anos 70, quando os professores ainda batiam nos alunos com uma espécie de palmatória de borracha.

Só que Neds é mais que isso.

O gordinho é de uma família da working class escocesa, da classe média baixa, uma família de trabalhadores, típica inglesa onde os pais ficam fora o dia todo e só percebem que seus filhos estão se fudendo tarde demais.

Como foi o caso do irmão mais velho do gordinho John, que foi expulso de casa e é um Ned, non educated deliquent, um delinquente sem educação, um hooligan, um adolescente já perdido, um tipo de um marginalzinho de gangue.

John usa da “fama” do irmão pra se livrar de perseguição vez ou outra e, à medida que vai crescendo, percebe que isso é algo mais valioso que apenas ir bem na escola com notas boas e estar na melhor turma (John nunca foi da 5a C, pra vocês terem ideia, sempre da A).

E o nerd aos poucos vai perdendo o R e virando um NED.

Quando o filme muda de tom e a comediazinha vira uma bela de uma comédia dramática de humor negro escocês fiadaputa, Neds cresce de uma forma absurda e vira um filmão da porra.

Escrito e dirigido pelo ótimo ator e diretor inglês Peter Mullan, muito desse sucesso se deve à escolha do elenco, principalmente a molecada da rua, com total foco em Conor McCarron, o gordinho cdf que cresce e vira mais que isso.

Seus dramas pessoais, seus dramas sociais, sua família toda cagada, seu pai abusivo, as oportunidades espúrias que vão aparecendo em seu caminho fazem de John McGill um personagem a ser lembrado, muito pelas decisões que ele toma, que me deixavam cada vez com a boca mais aberta à medida que o filme vai se desenrolando.

De novo, vivas para o diretor Mullan, um dos atores preferidos do mestre Ken Loach, aprendeu muito sobre direção de atores e direção de não atores também.

Filmaço.

132/365 REMAINDER

Remainder é um filme inglês bem doidinho, do tipo que eu gosto (e sei que um monte dos que lêem aqui também).

Remainder quer dizer restante. E nesse caso é o resto de memória que o protagonista tem depois de sofrer um acidente bizarro.

E por ser tão bizarro, ele recebeu uma fortuna em indenização. Fortuna mesmo, 8,5 milhões de libras, faça as contas.

Como ele não sabe mais de nada e só se lembra de poucas coisas como o cheiro de uma mulher fritando fígado, ou 3 gatos no telhado em frente a janela de seu apartamento, ou um menino que recebe uma moeda de uma mão com luvas de borracha, ele resolve recriar essas cenas para tentar que elas façam sua memória voltar.

E assim esse personagem, sem nome no filme, vai recriando essas cenas e as assistindo ao longe, como um voyeur que pretende participar mas ainda não.

Até que elas ganham um sentido próprio e o fazem tomar atitudes inesperadas, obviamente.

O filme pode ser considerado um primo bem próximo de Memento e Synecdoche, New York e um primo mais distante um pouco de Donnie Darko.

Só que no caso de Remainder, as coisas ficam menos no ar no final. Brincadeira, o filme é tão doido e “aberto a interpretações” como esses outros citados.

O filme é o primeiro dirigido por Omer Fast, um vídeo artista bem conhecido no mundo da arte contemporânea e que deixa claro em algumas cenas esse background.

O filme é bem bom, interessante, inteligente, um pouco hermético (nossa, termo véio esse) mas que no final das contas me cativou bastante. E uma das coisas melhores do filme, além da interpretação do sempre surpreendenteTom Sturridge, é a trilha do filme, criada por Schneider TM, o pseudônimo do músico alemão Dirk Dresselhaus, feita de barulhos e ruídos bem estranhos e que faz um puta sentido e funciona como uma parte importante do filme.

Assistam, amiguinho, assistam.

122/365 TSCHICK

Tinha passado batido por esse filme alemão até que li um amigo falando bem.

Se você quer um filminho good vibes, de molecada crescendo, uma comediazinha boa misturada com um road movie e filme de amadurecimento, Tschick é o seu filme.

Na Alemanha, um moleque feioso e estranho, pária em sua sala de aula, é apaixonado pela menina linda da classe mas claro que não correspondido.

Um dia entra um estudante russo em sua sala de aula e por ser russo, diferente e mais pobre, aparentemente, também entra nessa vibe de tentativas de bullying.

Por acaso os 2 se juntam nas férias, vão de penetra no aniversário da bonitona e saem de bacanas, porque roubaram um lada velho, mas 2 moleques de 14 anos com um carro são melhores que qualquer bonitão da escola.

Eles resolvem que não vão passar as férias em branco e caem na estrada literalmente sem saberem dirigir e com 200 euros no bolso que o pai do feioso deixou pra ele passar 2 semanas enquanto ele viaja com a namorada já que sua mãe está num rehab.

Nada será como antes e as consequências serão inesquecíveis.

Filme despretensioso e muito bem dirigido, com um elenco ótimo desses 2 meninos desgovernados estranhos muito bem vividos.

Roteiro bom, diálogos inteligentes e direção precisa, receita pra filme bom.

Se joga.

110/365 THE PASS

Peças de teatro que são transformadas em filme, na maioria das vezes terminam em desastre, principalmente porque o povo esquece que teatro e cinema são meios diferentes.

The Pass é uma peça que foi transformada em filme que na minha opinião deu errado.

2 jogadores de futebol se encontram na noite anterior a um jogo decisivo em um quarto de hotel e em meio à excitação pelo que há por vir, eles passam por uma situação constrangedora, pra dizer o mínimo.

O filme tem um salto de 5 anos onde um deles, vivido pelo mediano (mas amado por todo mundo) Russell Tovey, o inglês charmoso de Looking, está em um também quarto de hotel com uma mulher e se revela a ela.

5 anos depois (oi?) os 2 atletas se encontram de novo e de novo em um quarto de hotel, só que agora com um terceiro cara para joguinhos de bebidas e truth or dare.

O filme tem reviews bem impressionantes, todo mundo ama, acham o texto ótimo e as atuações maravilhosas mas eu acho o filme meio tedioso, monocórdio demais.

Tovey e o Arinze Kene, que fazem os 2 atletas, estão quase que o filme inteiro sem camisa mostrando muito os peitorais torneados. Eu acho que isso acaba chamando mais atenção do que qualquer outra coisa.

Certeza que no teatro a história funciona. Nessa adaptação, esqueceram de fazer cinema e optaram por praticamente filmar a peça.

100/365 1:54

Vamos falar de bullying.

Em tempos de 13 Reasons Why e violência ao vivo no BBB da globo, 1:54 deveria ser obrigatório pra molecada. Pra todo mundo, na verdade.

O filme conta a história de 2 adolescentes que sofrem bullying na escola por razão nenhuma, em princípio, só porque os valentões são valentões.

Os 2 adolescentes são nerds, são gays (mas ainda não sabem) e vivem grudados.

Até que um deles não aguenta a pressão e se mata.

Na frente do amigo, na sequência mais forte do filme.

O sobrevivente tira força de todo lugar que pode e planeja uma vingança linda contra os valentões.

Mas nada é tão fácil assim, principalmente em histórias de abuso, de violência, de bullying.

Aqui é porrada. Os que sofrem, continuam sofrendo apesar dos pesares. Os que cometem o bullying, continuam sendo do mal mesmo com o suicídio e tudo o mais que vai acontecendo.

Enquanto a séria da Netflix é cool, cheia de música dos anos 80, com fita K7, com um clima de mistério bem besta e com um elenco mal dirigido que não segura a onda, 1:54 tem um puta diretor, Yan England, que mostra a que veio, através de seus atores e da condução de um roteiro bem consistente.

Na minha opinião, 13 Reasons Why é um desserviço à questão do suicídio, glamurizando um tema que deveria ser tratado com todo o cuidado do mundo. A menina que se mata era cool, forte, com opinião e cria uma maneira de deixar um recado a quem fez mal a ela em vida, só que nunca muito punk. Eu sinceramente queria entender o hype todo.

1:54 filme só prova pra mim o quanto o Canadá é berço dos melhores filmes sobre molecada, seja saindo do armário e se descobrindo ou sofrendo violência como esse 1:54.

Infelizmente não é tão fácil de achar esse filme, mas assim que descobrir um canal de streaming ou algo parecido ou coloco aqui.

95/365 O QUE ESTÁ POR VIR

O Que Está Por Vir é daqueles filmes franceses que o povo fala muito, quase nada acontece mas quando você se dá conta parece que você tá andando ao lado da Isabelle Hupert, que se merecia uma indicação ao Oscar seria por esse filme.

Isabelle é uma professora universitária de filosofia com uma mãe excêntrica, um marido também professor, filhos quase adultos, alunos que fazem greve, seu editor que está com uma time de marketing nova e ela não os entende, seu pupilo que está indo morar numa comunidade anarquista.

No meio de tudo isso ela vai levando sua vida, tentando se adaptar ao mundo mas sempre com um pé à frente tentando criar o que está por vir.

Um filme daqueles que um pequeno detalhe faz toda a diferença: a maior atriz francesa de hoje em dia, La Huppert.

Essa mulher que em princípio é só mais uma no vai e vem da vida, Isabelle faz com que essa mulher acabe sendo uma guerreira se safando dos dragões que vão aparecendo no seu dia a dia.

A heroína moderna dá a oportunidade à Isabelle de mostrar porque ela é grande e inesquecível.

De novo, isso sim que é filme, não aquele truque do estupro que foi indicado ao Oscar.