144/365 RAW (GRAVE)

Acho que depois de ter assistido Raw eu vou passar uns dias só vendo comédia romântica fofinha de amorzinho, porque olha, que filme!

O francês Raw (aqui no Brasil se chama Grave, mas nem rola esse nome pessoal) é um terror literalmente visceral, punk, animal, bem bom.

O filme conta a história de uma garota, vegetariana radical, que começa a faculdade de veterinária, a mesma que sua irmã estuda e que seus pais também estudaram antes delas.

No trote, ela é forçada a comer carne, um pedaço de fígado de coelho, o que acaba causando efeitos bem sérios nela.

Começa uma coceira bem forte com manchas pelo corpo, meio que uma urticária desgraçada e a partir daí, tudo muda.

Ela começa a comer carne, vai pra carne crua, até que num acidente na hora da depilação, ela se delicia com o dedo da irmã.

Não, Raw não é uma comédia. O filme é sério, pesado, explícito, sem concessões. Sabe canibalismo? Pois é. Mas não só, Raw é bem erótico, bem mais do que até eu esperava. E funciona lindamente.

A garota descobre mais ou menos o que está acontecendo com ela e como ela pode tentar resolver essa fome desmesurada que apareceu em sua vida.

Muito sangue, muita câmera na mão, muito sangue, muito mais sangue e o filme vai embora, super bem dirigido e escrito pela francesa Julia Ducournau e com um elenco de dar inveja, Raw é um filme bem peculiar sobre o desabrochar de uma garota para a vida adulta.

Se você tem estômago forte, assista Raw que vale a pena.

Daft Punk sem capacete em Cannes.

Thomas Bangalter, um dos robôs do Daft Punk na verdade não é um robô!

Como assim?

Ele esteve ontem a noite na sessão oficial de abertura do Festival de Cannes, ao lado de sua esposa, a fodona Élodie Bouchez.

Ele é o cara meio careca, meio cabeludo, de óculos na foto, ao lado de Élodie.

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Bom, repensando o que escrevi antes, parece que Thomas é um robô sim. Enquanto as pessoas nesse vídeo, sua esposa e até Adrien Brody se movem, Bangalter fica duro que nem respira.

138/365 FIQUE COMIGO

Ah, as comédias francesas.

Fique Comigo é uma daquelas comédias que você acha que estão super bem encaminhadas e de repente, BAHM!, cai um astronauta no telhado e o filme só melhora.

Passado em um prédio na periferia de Paris, o filme começa com um problema de condomínio: o elevador precisa ser reformado.

Todo mundo topa, menos o morador do primeiro andar que diz que não precisa usá-lo e que por isso não quer gastar dinheiro.

Os condôminos resolvem que vão arcar com a parte dele mas que o figura não pode usar o elevador. Até que no outro dia ele sofre um pequeno acidente e tem que ficar de cadeira de rodas por um tempo e por isso, o que mesmo? Ele precisa usar o elevador escondido.

Mas esse é só o começo do filme, que dita o tom de Fique Comigo, uma comédia de humor negro, ou de um humor tipicamente francês, adulto, de canto de boca. E a partir daí as outras personagens que moram no prédio vão aparecendo: uma atriz de cinema que tem que explicar sua carreira pro moleque vizinho amante de cinema e não a conhece, o cara de cadeira de rodas que finge ser fotógrafo famoso porque se interessa pela enfermeira do hospital onde ele vai toda noite pegar comida; a mulher que mora sozinha e que cuida, sim, do astronauta americano que caiu no telhado do prédio que só fala inglês e se comunica como pode com sua anfitriã.

Historinhas boas que acontecem no mesmo lugar, o prédio, com aquela vibe que a gente gosta de filmes do Altman, de herói coletivo, sem personagem principal e com uma bela lição de uma estrela como Isabelle Huppert no meio disso tudo como a atriz solitária e mais a minha preferida Valeria Bruni Tedeschi e Michael Pitti.

136/365 THE LAST FAMILY

Mais um filme polonês pra lista do ano, mais um ótimo filme pro topo da lista, The Last Family talvez seja um dos filmes que melhor misture o que é documentário e o que é ficção, graças ao belíssimo trabalho do diretor Jan P. Matuszyński.

O filme conta a história real de um famoso pintor polonês, Zdzislaw Beksinski, que em 1977 sob a cortina de ferro, em um país fechado, onde ele se escondia de visitas casuais da Gestapo, vive em seu apartamento com a esposa Zofia, a base da família, sua mãe e sua sogra idosas. E seu filho, Tomasz, bipolar, depressivo, quase esquisofrênico, suicida, que acabou de se mudar para um apartamento sozinho, mas que circula pela casa.

O filme tem como base as gravações em áudio e vídeo que Zdzislaw fazia incessantemente de sua família em sua casa.

Ao invés de focar na fama e genialidade do surrealista, o diretor e o roteirista Robert Bolesto preferiram fazer um filme que se passa basicamente dentro deste universo familiar tão peculiar, já que como vemos durante o filme, essa família, como toda família, é bem singular, principalmente pelo modo como o pintor lida com esses ao seu redor.

Vídeos originais são usados durante o filme em meio a recriações de situações onde apenas o áudio tinha sido gravado e isso faz com que a noção de real (documentário) e ficção tenha um sentido novo.

Zdzislaw Beksinski foi um pintor tão perdido na “burocracia comunista” que quando ele recebe uma encomenda de 12 quadros para entregar em um ano ao preço de 12 mil dólares, acha que todos os seus problemas estão resolvidos.

Principalmente como lidar com seu filho Tomasz, que apesar de todos os seus problemas, era um dj conhecido, fazia festas e tinha programa de rádio, sempre com novidades de rock inglês (ah, como isso me lembrou da minha adolescência na mesma época por aqui, quando os discos importados eram raridade) e também virou um tradutor de renome, como vemos numa cena dele em uma sala de alguma faculdade dublando em polonês o novo filme do 007 ao vivo.

E o grande ator Star Seweryn é o que leva o filme a um outro nível, incorporando um Beksinski de uma forma que muitas vezes eu demorava alguns momentos para saber que era o ator em uma cena recriada à perfeição e não um vídeo original do pintor.

Lindo demais.

135/365 NEDS – JOVENS DELINQUENTES

Filmão de 2010 que só vi agora, Neds é um filme escocês que parece uma coisa e é outra (melhor) completamente diferente.

Neds parece uma comediazinha bacana sobre o gordinho bonitinho maior vítima de bullying na escola, em Gasgow nos anos 70, quando os professores ainda batiam nos alunos com uma espécie de palmatória de borracha.

Só que Neds é mais que isso.

O gordinho é de uma família da working class escocesa, da classe média baixa, uma família de trabalhadores, típica inglesa onde os pais ficam fora o dia todo e só percebem que seus filhos estão se fudendo tarde demais.

Como foi o caso do irmão mais velho do gordinho John, que foi expulso de casa e é um Ned, non educated deliquent, um delinquente sem educação, um hooligan, um adolescente já perdido, um tipo de um marginalzinho de gangue.

John usa da “fama” do irmão pra se livrar de perseguição vez ou outra e, à medida que vai crescendo, percebe que isso é algo mais valioso que apenas ir bem na escola com notas boas e estar na melhor turma (John nunca foi da 5a C, pra vocês terem ideia, sempre da A).

E o nerd aos poucos vai perdendo o R e virando um NED.

Quando o filme muda de tom e a comediazinha vira uma bela de uma comédia dramática de humor negro escocês fiadaputa, Neds cresce de uma forma absurda e vira um filmão da porra.

Escrito e dirigido pelo ótimo ator e diretor inglês Peter Mullan, muito desse sucesso se deve à escolha do elenco, principalmente a molecada da rua, com total foco em Conor McCarron, o gordinho cdf que cresce e vira mais que isso.

Seus dramas pessoais, seus dramas sociais, sua família toda cagada, seu pai abusivo, as oportunidades espúrias que vão aparecendo em seu caminho fazem de John McGill um personagem a ser lembrado, muito pelas decisões que ele toma, que me deixavam cada vez com a boca mais aberta à medida que o filme vai se desenrolando.

De novo, vivas para o diretor Mullan, um dos atores preferidos do mestre Ken Loach, aprendeu muito sobre direção de atores e direção de não atores também.

Filmaço.

133/365 THE LURE

The Lure é uma voadora no peito, com os 2 pés e gritando.

É um filme polonês sobre 2 sereias que quando na terra, viram cantoras de uma banda numa boate malucona nos ano 80’s.

Imagine a pequena sereia num filme de terror, sendo que ela faz sexo, fica bêbada, canta e é meio do mal.

The Lure é um musical. Só que também é uma comédia. Mas principalmente é um filme de terror. Bem bizarro, bem punk, tudo misturado.

A história começa quando uns bêbados vão para a praia numa madrugada cantar e 2 sereias aparecem e cantam para eles perguntando se elas devem ir para terra firme.

Daí já vemos as fofas, peladas e com pernas, no camarim da boate malucona, amparadas pela vocalista da banda do que deve ter sido a new wave polonesa. Quando o dono da boate, sentindo um cheiro forte de peixe, finalmente chega no camarim e vê as duas meninas nuas, percebe que eles não possuem nem vagina e nem ânus, ao que explicam que elas são sereias e para ele ver, jogam água em suas pernas que logo viram de volta os rabos de peixe enormes.

Elas são lindas, uma ruiva e uma morena, naturalmente sedutoras, cantam bem, obviamente, como toda sereia e começam a fazer backing vocals, só que elas são boas demais e já viram as queridinhas do lugar, viram cantores e stripers.

Só que no meio disso as coisas não são tão fofas e bacanas assim.

Primeiro que ninguém fica surpreso por elas serem sereias, é uma vibe bem normal, como se estivessem acostumados com isso.

No fundo elas que precisam se acostumar com o povo normal, comprar roupas e sapatos, aprender a se portar e principalmente, resistir a tentação de não estraçalhar e comer as pessoas, o que é bem difícil pra elas.

Fofas, né?

Elas encontram outro ser aquático que vive entre os normais e teve um chifre arrancado por um homem e de raiva arrancou o outro, tendo 2 cicatrizes lindas na testa.

Encontram uma policial locona que numa investigação se joga pra uma das sereias.

E uma delas se apaixona pelo baixista da banda, só que é avisada que se ela fizer a cirurgia de redesignação de perna, numa das cenas mais lindas do filme, ela vai perder a voz e virar espuma de água.

Depois de muita música, algumas piadas bizarras, um terror lindo, The Lure é  um filme coming of age, de amadurecimento, onde as sereias representam numa metáfora descaradas duas adolescentes entrando na vida adulta, tomando a primeira vodka, fumando o primeiro cigarro, fazendo sexo, menstruando, sofrendo abuso de adultos, mudando o corpo, exalando cheiros específicos, se apaixonando pela primeira vez e tudo mais a que tem direito.

Filmaço do mais estranho, que me deixou bem impressionado e meio de queixo caído com a ousadia da diretora, e minha nova ídola, Agnieszka Smoczyńska.

P.S. – desde 2015 quando li sobre esse filme que tento ver de qualquer maneira. Finalmente consegui, com a dica valiosa de um querido, procurando o torrent pelo título original dele. Sou lento de vez em quando.

132/365 REMAINDER

Remainder é um filme inglês bem doidinho, do tipo que eu gosto (e sei que um monte dos que lêem aqui também).

Remainder quer dizer restante. E nesse caso é o resto de memória que o protagonista tem depois de sofrer um acidente bizarro.

E por ser tão bizarro, ele recebeu uma fortuna em indenização. Fortuna mesmo, 8,5 milhões de libras, faça as contas.

Como ele não sabe mais de nada e só se lembra de poucas coisas como o cheiro de uma mulher fritando fígado, ou 3 gatos no telhado em frente a janela de seu apartamento, ou um menino que recebe uma moeda de uma mão com luvas de borracha, ele resolve recriar essas cenas para tentar que elas façam sua memória voltar.

E assim esse personagem, sem nome no filme, vai recriando essas cenas e as assistindo ao longe, como um voyeur que pretende participar mas ainda não.

Até que elas ganham um sentido próprio e o fazem tomar atitudes inesperadas, obviamente.

O filme pode ser considerado um primo bem próximo de Memento e Synecdoche, New York e um primo mais distante um pouco de Donnie Darko.

Só que no caso de Remainder, as coisas ficam menos no ar no final. Brincadeira, o filme é tão doido e “aberto a interpretações” como esses outros citados.

O filme é o primeiro dirigido por Omer Fast, um vídeo artista bem conhecido no mundo da arte contemporânea e que deixa claro em algumas cenas esse background.

O filme é bem bom, interessante, inteligente, um pouco hermético (nossa, termo véio esse) mas que no final das contas me cativou bastante. E uma das coisas melhores do filme, além da interpretação do sempre surpreendenteTom Sturridge, é a trilha do filme, criada por Schneider TM, o pseudônimo do músico alemão Dirk Dresselhaus, feita de barulhos e ruídos bem estranhos e que faz um puta sentido e funciona como uma parte importante do filme.

Assistam, amiguinho, assistam.

130/365 SR. NINGUÉM

Finalmente consegui assistir esse puta filme lindo: Sr. Ninguém é um filme belga, do diretor Jaco Van Dormael.

O filme conta a história do último mortal da Terra, vivido por um ótimo Jared Leto, que aos 118 anos de idade está em um hospital aparentemente em seus últimos momentos de vida.

Ele acorda nesse hospital aos 118 anos sem saber o que aconteceu e porque estaria nesse local, num planeta onde ninguém mais morre.

Só que seu grande drama não é esse, mas sim tudo o que aconteceu em sua vida e como ele terminou onde está hoje.

Sr Ninguém foi um garoto normal, filho de pais separados, se apaixonou por 3 meninas, casou com 1 delas, teve 3 filhos e o filme conta toda essa história como em alguns momentos específicos mostra como teria sido se ele tivesse tomado outras decisões, como se num universo paralelo ele tivesse se casado com outro mulher, por exemplo.

E o lindo desses momentos do filme é que esse universo paralelo afeta a vida e a memória da vida real do sr. Ninguém. Lindo demais. Dá uma impressão de viagem no tempo ou algo parecido e o legal é que esses momentos são de um bom humor desconcertante inclusive.

O filme é ótimo, o roteiro é extremamente bem escrito e bem amarrado, obra do diretor Van Dormael. Estilisticamente, quando se passa no futuro em 2092, o filme parece ser um primo do filme francês O Quinto Elemento, o que é uma grande coisa.

E como disse, Leto está muito bem como jovem e melhor ainda como o ancião de 118 anos. Sempre que eu vejo um ator fazendo papel de idoso, reclamo do gestual, do corpo, do andar e Leto dá uma aula de como se fazer, diferente da Drew Barrymore em Grey Gardens que faz a velha mais animada da história.

Graham Norton da semana: Diane Keaton, Jessica, Michael, Kevin e Gorillaz.

Graham Norton é o meu programa de entrevistas preferido já faz uns bons 10 anos.

Norton é um belo de um roteirista e comediante inglês, responsável por muitas das piadas boas de Absolutely Fabulous só pra citar outro show preferido.

Vou começar a postar aqui uns highlights de seu programa semanal, que vai ao ar toda sexta feira a noite na BBC e no sábado cedo já está no youtube.

Infelizmente nada novo tem legendado pra eu subir, mas o CC funciona bem.

Semana passada ele teve em seu sofá Jessica Chastain, que contou histórias de sua avó de 90 anos de idade no tinder, Michael Fassbender que fez uns passos de break dance e falou do novo Alien,

Kevin Bacon que falou que odeia não ser reconhecido,

e a grande Diane Keaton que contou coisas sobre as filmagens de O Poderoso Chefão,

além de beijar todos os outros convidados na boca. Todos.

Pra fechar com chave de ouro, teve Gorillaz ao vivo com o Noel Gallagher e Damon Albarn sendo perguntado quando eles 2 tinham ficado amigos. Foda.

Eu rio muito e fico arrepiado todo programa.

E o programa inteiro tá aqui:

129/365 NA CAMA COM VICTORIA

Não poderia ter um título mais escroto e errado para um filme tão bom e tão fodão como Na Cama Com Victoria.

Com esse título misógino, parece que a personagem principal do filme é uma puta. O que não teria problema nenhum se ela fosse. Mas Victoria é mãe de 2 filhas pequenas que cria sem o pai, advogada fodona, mulher de atitude, a empoderada desses nossos dias, não tem problemas sexuais ou problemas em ter alguns parceiros sexuais e acho que por isso alguém bem equivocado na distribuidora brasileira acho que teve a brilhante ideia do título.

E, detalhe, o sexo no filme é bem coadjuvante.

Como já disse Victoria é uma advogada fodona que ao mesmo tempo que pega o caso de seu melhor amigo, tem que se defender em um caso com seu ex marido que resolveu virar blogueiro e criou uma personagem fictícia baseada na vida profissional de sua ex mulher e lá entrega alguns de seus segredos jurídicos.

Isso tudo tendo que lidar com seus problemas do dia a dia como arrumar babá para as filhas, só pra citar um deles.

Victoria é o tipo de filme que poderia ser feito por aqui em português que seria um novo Que Horas Ela Volta?, com o mesmo tipo de pegada sócio-político-cultural.

O filme é escrito e dirigido pela ótima Justine Triet e tem Virginie Efira, uma bela de uma atriz que deu alma e corpo e voz à Victoria.