173/365 CITY 40

Antigamente, quando ia-se elogiar alguma coisa ou algum lugar, dizia-se que tal coisa “não está no mapa”.

City 40 é um documentário sobre Ozersk, uma cidade russa que literalmente não está no mapa.

Ozersk é um cidade que foi criada no final dos anos 1940’s como berço do programa nuclear da antiga União Soviética e ficou conhecida como o cemitério da Terra.

Apesar disso, como as autoridades costumam dizer, a cidade é um paraíso, com ruas tranquilas, taxa zero de criminalidade, supermercados lotados de comidas com as melhores opções , como diz um entrevistado do filme, Ozersk é uma cidade intelectual.

Os primeiros moradores da cidade que não existe foram cientistas, engenheiros nucleares e funcionários de altas patentes do governo soviético.

Com o passar do tempo, as pessoas foram criando famílias que lá moram até hoje, famílias que são “desaconselhadas” a saírem de lá e isso quer dizer, praticamente proibidas de deixarem o local. E quando isso acontece, tem sempre um agente secreto, hoje russo, no encalço dessas pessoas, mesmo que seja quando elas vão passar um fim de semana de férias em outro lugar.

Ozersk é o lugar da Rússia onde os estão seus maiores segredos nucleares. Assim, como dizem no filme, todo mundo que lá vive sabe de algo que não se deve dividir com quem não interessa.

City 40 foi feito totalmente escondido, depois de muito tempo de produção e criação de possibilidades para que isso acontecesse. E o filme acompanha uma advogada de direitos humanos que lá vive com seus filhos, sem marido e sem família, exatamente por seu trabalho que vai contra o “estipulado” para quem por lá vive.

Além disso, o filme mostra o quanto a ignorância em relação a testes nucleares e como a manipulação dos plutônios da vida detonaram muita coisa por aí.

No fim das contas, a cidade parece um campo de concentração, um gulag, rodeada por muros e bem fortificada, onde sair ou entrar de lá não são opções fáceis.

O filme tá na Netflix e super vale a pena.

 

171/365 I AM HEATH LEDGER

Documentário bem emocionante feito pela família e os amigos de Heath Ledger.

O filme, claro, conta a história da vida do ator australiano de uma forma bem linda, usando muitos dos vídeos que o próprio Heath gravava desde sempre.

E aí descobrimos o quanto o cara era bacana, simplão, tinha muitos amigos e tinha todos esses amigos sempre por perto, sempre os ajudando e uns morando com ele e tudo mais.

Todos esses melhores amigos e todos os familiares falam no filme, contam histórias, falam bem dele, de sua generosidade, de sua proximidade, de como tratava todo mundo como família mesmo, tudo lindo e maravilhoso.

Heath, depois que começou a ganhar dinheiro em Hollywood, montou uma produtora e uma gravadora, onde gravava artistas que ele curtia, fazia clipes pra outros artistas.

Ang Lee, o diretor de Brokeback Mountain, é o único grande que aparece no documentário falando dele, elogiando-o como ator e como pessoa relembrando como ele é um puta ator, já que todo mundo acha que no filme ele nnao fala nada, é quieto e tal, mas que seu personagem é o que mais tem falas no filme.

Fora falarem que ele não parava, que virava noites criando e ligando pros amigos, o que ninguém fala no filme é do lado “dark” e obscuro e “atormentado” de Heath e de como isso terminou com sua morte prematura.

Então se você quiser ver um filme fofo sobre um ótimo ator que morreu cedo demais, onde as pessoas falam bem dele, veja I Am Heath Ledger.

E faça como eu, que aguardo a parte 2 mostrando o outro lado do ator que fez um Coringa melhor que Jack Nicholson.

170/365 FOREVER PURE

O que me deixa sempre mais e mais feliz com o cinema é descobrir histórias que estão acontecendo por esse mundão afora e que eu nunca tinha ouvido falar como esta.

Em Jerusalém existe um time de futebol onde o único jogador que não é judeu é um argentino que se diz sem religião.

Esse time é o Beitar Jerusalem , que se gaba de nunca ter tido um jogador árabe nem um jogador muçulmano em toda sua história.

Além disso, eles também se gabam de sua torcida organizada radical from hell, La Famiglia, que como vi no filme, tem um poder absurdo no time.

Sim, o time e a torcida são bem radicais mesmo.

É até absurdo dizer que os caras sejam quase nazistas, sendo quem são, mas até o jogador argentino fala isso no filme, que não se conformo como um povo que já passou por tudo que passou possa ter atitudes tão preconceituosas.

Em 2012, o time foi comprado por um magnata russo que queria estreitar relações comerciais entre Israel e a Chechênia (!!!) e numa jogada comercial, levou 2 jogadores chechenos para o Beitar.

Detalhe: os jogadores, como a grande maioria do povo checheno são muçulmanos.

E a coisa ficou feia.

Ninguém aceitou esses jogadores, nem o time e muito menos La Famiglia.

E a coisa ia ficando cada vez mais feia com o passar do tempo.

O fim é surpreendente, em relação ao time, à torcida, aos jogadores chechenos e ao russo dono do time.

O Forever Pure, do título do filme, é um dos slogans do Beitar e diz muito sobre o que podemos esperar desse puta documentário lindo.

166/365 ONE MORE WITH FEELING

Filme em cartaz no Festival #INEDITBRASIL

Mais um filme em cartaz no In-Edit Brasil, o festival de documentários musicais que está acontecendo em SP.

One More With Feeling é o novo filme/documentário sobre Nick Cave.

Depois de 20.000 Days On Earth, um documentário onde Cave acaba “atuando” de uma forma toda própria em cenas peculiares e muito, muito boas, desta vez a ideia foi outra.

O projeto começou como um documentário sobre a gravação de seu novo álbum com os Bad Seeds, mas no meio do processo uma tragédia aconteceu: seu filho de 15 anos de idade morre de uma forma absurda.

Se não por mais nada, se não pela genialidade, pelo carisma de Nick Cave, um documentário que era sobre criação e genialidade acaba sendo um estudo sobre força, sobre fé, sobre chegar no fundo do poço.

One More Time With Feeling é uma expressão usada por diretores em filmagens, gravações, quando pedem para seus atores fazerem mais uma tomada de uma cena, s´ø que desta vez com sentimento.

Neste documentário, este título não poderia ser mais apropriado.

Imperdível.

 

165/365 HATED: GG ALLIN AND THE MURDER JUNKIES

Filme em cartaz no Festival InEditBrasil

Se você não conhece GG Allin, prepare-se pra alguns socos no estômago assistindo esse documentário.

Se você conhece, prepare-se para alguns outros, porque tudo o que nos contaram é verdade.

GG Allin foi um músico, compositor bem conhecido da cena punk americana. Doido, mito, amado e odiado, claro que muito mais odiado que amado, junkie, suicida, iconoclasta, ele tinha todos os predicados que se podem esperar de um Doidão com D maiúsculo, no pior dos sentidos.

Sua banda Murder Junkies tinha esse nome não por acaso.

Fora da cena, a mitologia em torno de Allin era enorme e bem peculiar. E muitas vezes o povo ia aos shows dos Junkies pra ver ao vivo o que já tinham ouvido mas não acreditavam que poderia ser verdade.

Allin era o punk que vivia o punk mesmo, à margem de tudo, inclusive da cena punk.

Além da sua música muito politizada e obviamente de protesto, Allin usava seu corpo para demonstrar o que queria como ninguém.

Sempre fazia os shows pelado.

E vomitava e comia o vômito, mijava e tomava seu mijo, cagava e comia, cuspia, brigava, se cortava, sangrava e tudo mais que podia fazer para que seu público saísse dos shows com “um pouco” dele.

Porque ele não só fazia tudo isso, mas depois de fazer ele espalhava o que tinha feito pela platéia.

E o foda desse filme é que o diretor, que tinha uma relação bem próxima a Allin, seu irmão e o resto da banda, acompanhou de perto os caras e muito de perto captou e mostra tudo isso e um pouco mais.

Obviamente que Allin morreu de overdose de heroína em 93, época que o filme estava sendo feito e por isso mesmo Hated se torna ainda mais obrigatório.

Uma aula obrigatória na cartilha da música relevante das últimas décadas.

E um detalhe: o filme é o primeiro do diretor Todd Phillips, que 20 anos depois faria sucesso com Se Beber Não Case!

 

E o filme completo:

161/365 LAERTE-SE

Laerte-se é o primeiro documentário brasileiro produzido pela Netflix.

Laerte-se conta um pouco da história da cartunista transgênero Laerte, mostrando como ela está hoje em dia e como ela vem lidando com sua transformação.

Laerte-se é o pior filme possível com a melhor personagem possível.

Na escola, na primeira aula, a gente aprende que para se fazer um bom documentário é preciso, antes de mais nada, achar uma boa “personagem”.

A Laerte é a melhor das personagens.

Uma das maiores cartunistas e artistas do Brasil, Laerte era homem e alguns anos atrás começou a sua jornada transgênero e hoje em dia é uma bela duma mulherona.

Só que o filme… Ah, o filme. O que custava colocarem uma equipe que entendesse o mínimo de cinema ou de tv ou de gravação de festa de casamento, pelo menos, para fazerem o filme.

Durante duas horas eu fiquei o tempo todo distraído da história maravilhosa da cartunista por causa de câmera tremendo, câmera apontando pra onde não deveria, enquadramento tosco e daí pra frente.

Tá bom, na mesma primeira aula a gente aprende que em documentário o conteúdo é 99% do filme, que a forma nem sempre é importante. Só que as diretoras de Laerte-se não precisavam exagerar.

O conteúdo é o melhor possível e por isso parece que a forma foi deixada totalmente de lado.

É complicado você ter uma bela de uma história e não saber contá-la. Na verdade, seria lindo se alguém ali se ligasse que o filme estava ficando ruim e pedisse ajuda aos universitários.

Apesar de todos os pesares, e olha que os pesares são quase infindos, assista Laerte-se e fique embasbacado com uma lição de vida única e exemplar.

136/365 THE LAST FAMILY

Mais um filme polonês pra lista do ano, mais um ótimo filme pro topo da lista, The Last Family talvez seja um dos filmes que melhor misture o que é documentário e o que é ficção, graças ao belíssimo trabalho do diretor Jan P. Matuszyński.

O filme conta a história real de um famoso pintor polonês, Zdzislaw Beksinski, que em 1977 sob a cortina de ferro, em um país fechado, onde ele se escondia de visitas casuais da Gestapo, vive em seu apartamento com a esposa Zofia, a base da família, sua mãe e sua sogra idosas. E seu filho, Tomasz, bipolar, depressivo, quase esquisofrênico, suicida, que acabou de se mudar para um apartamento sozinho, mas que circula pela casa.

O filme tem como base as gravações em áudio e vídeo que Zdzislaw fazia incessantemente de sua família em sua casa.

Ao invés de focar na fama e genialidade do surrealista, o diretor e o roteirista Robert Bolesto preferiram fazer um filme que se passa basicamente dentro deste universo familiar tão peculiar, já que como vemos durante o filme, essa família, como toda família, é bem singular, principalmente pelo modo como o pintor lida com esses ao seu redor.

Vídeos originais são usados durante o filme em meio a recriações de situações onde apenas o áudio tinha sido gravado e isso faz com que a noção de real (documentário) e ficção tenha um sentido novo.

Zdzislaw Beksinski foi um pintor tão perdido na “burocracia comunista” que quando ele recebe uma encomenda de 12 quadros para entregar em um ano ao preço de 12 mil dólares, acha que todos os seus problemas estão resolvidos.

Principalmente como lidar com seu filho Tomasz, que apesar de todos os seus problemas, era um dj conhecido, fazia festas e tinha programa de rádio, sempre com novidades de rock inglês (ah, como isso me lembrou da minha adolescência na mesma época por aqui, quando os discos importados eram raridade) e também virou um tradutor de renome, como vemos numa cena dele em uma sala de alguma faculdade dublando em polonês o novo filme do 007 ao vivo.

E o grande ator Star Seweryn é o que leva o filme a um outro nível, incorporando um Beksinski de uma forma que muitas vezes eu demorava alguns momentos para saber que era o ator em uma cena recriada à perfeição e não um vídeo original do pintor.

Lindo demais.

126/365 EU NÃO SOU SEU NEGRO

Eu Não Sou Seu Negro (I Am Not Your Negro) talvez seja o documentário americano mais importante dos últimos anos, politicamente e esteticamente falando.

Dirigido pelo haitiano Raoul Peck, o filme é baseado num manuscrito do grande escritor americano, James Baldwin, gay e negro e ativista político, autor de um dos meus livros preferidos da vida O Quarto de Giovanni.

Em 1979 Baldwin disse a seu editor que estava com um novo projeto que se chamava “Remember The House”, sobre 3 de seus amigos que haviam sido assassinados, Malcolm X, Martin Luther King e Medgar Evers, todos nomes de ponta na luta pelos direitos dos negros no EUA e todos assassinados nos anos 60, uma época que os negros ainda andavam no fundo dos ônibus e usavam banheiros e entradas diferentes dos brancos.

O diretor Peck chamou Samuel L. Jackson para narrar as únicas 30 páginas escritas por Baldwin que são ilustradas por muitos vídeos do próprio Baldwin em palestras, entrevistas e debates, mas o filme é principalmente recheado por cenas de marchas de negros, de protestos e de negros sendo espancados, negros sendo cuspidos, brancos empunhando cartazes nazistas nos anos 60 nos EUA e daí pra baixo.

O filme é uma porrada no estômago, um tapa na cara, de chorar mesmo, nos lembrando que 50 anos atrás isso ainda acontecia no mundo, mas que hoje em dia a luta continua.

Eu demorei para escrever sobre I Am Not Your Negro porque queria que todo mundo que está adorando a nova série da Netflix, Dear White People, achando que é fodona e tudo mais, tem a obrigação moral de assistir esse documentário para entender como funciona na vida real a parada toda.

 

101/365 STRIKE A POSE

Se você estiver em um dia bom e puder levar um soco no estômago de tristeza, assista esse belo documentário Strike a Pose na Netfilx, sobre os dançarinos da Madonna na tour Blond Ambition de 1990 e do filme Truth Or Dare.

Primeiro porque é um lição sobre a cultura da sub celebridade (obrigado BBB’s da vida) e sobre como as pessoas lidam com a (pseudo) fama repentina e como essa fama os catapulta às alturas, sendo que quanto mais alto, maior o tombo.

Depois que a dupla de criadores e diretores do filme, Ester Gould e Reijer Zwaan, conseguiu nos conduzir de uma forma a acreditar em um final e eu me surpreendi com o que eu vi.

Strike a Pose começa com a história dos bailarinos sendo descobertos no underground, principalmente Jose e Luis que trouxeram o Vogueing pro pop. Os ensaios, a tour, o filme, a fama, as fotos, os autógrafos até que terminou.

Então o filme mostra a vida dos 7 dançarinos nos 25 anos que se passaram da tour (o filme foi feito em 2015) e mostra como eles sobreviveram com os poucos prós e os muitos contras (pelo menos essa foi a conclusão que eu cheguei) do fardo que foi terem participado de uma das grandes obras de arte da cultura pop.

E uma das grandes coisas do filme é o uso de trechos de Truth or Dare e de cenas e sequências da tour de 1990.

Sexo, drogas e dance music seria um nome bom pro documentário também.

Como eu não sou um super fã da Madonna, não sabia de várias coisas mostradas no documentário, como por exemplo um processo por causa do Truth or Dare.

Ver as conclusões a que esses caras chegaram depois de tantos anos é uma lição de vida pra um monte de gente por aí (pra mim mesmo, inclusive), mas concluindo tudo mesmo, a sabedoria vem com o tempo mesmo, não tem jeito.

Agora, prepare-se pro coração apertar.

Filmão.

79/365 A SÍNDROME DO PUNK

Punk que é punk encoxa a mãe no tanque? Não. Punk que é punk entra no palco com a cueca cheia de merda.

A Síndrome do Punk é o documentário mais lindo e mais divertido e mais melancólico que eu vi esse ano. O filme conta a história de uma banda punk finlandesa chamada Pertti Kurikan Nimipäivät (ou PKN) onde todos os seus componentes tem ou autismo ou síndrome de down.

O filme não julga ninguém, não explica nada, não tem legenda, só mostra como os 4 membros dessa banda vivem e se viram e se apresentam.

Sua música é a forma que encontraram para gritar contra os preconceitos que sofrem, os problemas do dia a dia, o silêncio do governo ou por terem que viver em casas comunitárias e por aí vão.

Por causa do documentário a banda começou a ter um pouco mais de fama que não apenas no circuito underground e com isso conseguiu uma maior visibilidade para suas “súplicas”.