Minha teoria sobre um recadinho do Lynch no novo Twin Peaks.

Ontem estreou a terceira temporada de Twin Peaks, a série de tv mãe de todas as séries de tv que tanto gostamos hoje em dia.

Pra quem como eu (véio) assistiu e ficou chocado com a série quando estreou 20 e tantos anos atrás e passava na Globo nas madrugadas de domingo pra segunda feira, ver os novos episódios de Twin Peaks hoje na Netflix, um dia depois de passarem nos EUA é um presente dos deuses da tv (ops, desculpe aí Neil Gaiman).

O episódio começa com a sempre fofa Laura Palmer na sala vermelha falando de trás pra frente só que não para o agente Cooper que eles se encontrariam 25 anos depois e bingo, cá estamos 25 anos depois do último episódio da segunda temporada.

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Deu um aperto no coração ver uma sequência linda e inédita da Log Lady vivida pela atriz Catherine Elizabeth Coulson, falecida em 2015.

Mas o que me chocou, e acho que todo mundo, foi a morte do casal de “novinhos”.

E pra mim essa morte me pareceu um recadinho de David Lynch, que se foi mesmo, nunca saberemos porque o cara nunca fala nada de sua obra, ele diz que tudo se reponde por si mesmo e pela interpretação do espectador.

Bom, um jovem de uns 20 anos está trabalhando num galpão lindão e seu trabalho é observar uma caixa enorme de vidro, rodeada de câmeras gravando por todos os lados, onde ele de tempos em tempos troca os cartões de memória com as gravações.

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Eis que uma outra jovem vem lhe trazer café e, sem o segurança na porta, entra no galpão que não poderia ter entrado. Os dois se sentam e observam a caixa.

Ele diz que tem que prestar atenção para algo que possa acontecer e diz que nunca viu nada, mas que a pessoa que trabalhou antes diz ter visto, mas ele não sabe o quê.

Eles trocam olhares, começam se beijar, tiram as roupas até que a caixa vai sendo tomada por uma espécie de fumaça negra e na fumaça aparece uma criatura (obviamente) bem estranha, com corpo de mulher mas com o cabeça não definida.

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A criatura arrebenta uma das paredes de vidro, saindo da caixa e indo direto pra cima do casal e os estraçalha em uma das piores (melhores) mortes de Twin Peaks.

Agora vai minha teoria besta: a caixa de vidro é a televisão; o casal é a molecada de hoje em dia que se senta em frente às neflix’s da vida e ao invés de prestarem atenção vão se pegar; o monstro bizarro e disforme e impiedoso é o próprio Twin Peaks que volta pra fuder com a parada toda.

Viagem demais?

137/365 BRANQUINHA

Branquinha é o filme americano que mais deu o que falar ao estrear no Festival de Sundance em 2016.

O filme foi vendido como o novo Kids e na minha opinião, Branquinha é um pouco mais que isso.

O filme é muito bem escrito e muito bem dirigido por Elizabeth Wood e tem na atriz principal um grande trunfo.

Morgan Saylor se joga de cabeça no papel da jovem baladeira de NY, que está de férias do primeiro ano de faculdade e se muda de apartamento.

Na casa nova, se encanta pelo traficante da rua e a aproveitar o que pode, já que as drogas estão fáceis e a festa nunca termina.

A partir daí, o filme entra num turbilhão de balada, cocaína, sexo, maconha, crack, mais drogas, mais sexo explícito, até que o traficante namorado da Branquinha (do título) vai preso.

E ela faz tudo o que pode para tirá-lo da cadeia, o que quer dizer vender a cocaína dele pra levantar dinheiro, transar em troca de favor, ela é roubada, estuprada, apanha do traficante chefão e muito mais.

O filme é forte, pesadão e disse que não é o novo Kids, mas sim um próximo passo, já que o filme é escrito e dirigido por uma mulher e o foco é outra mulher e o périplo pelo inferno que ela passa por amor.

Ah, e tem na Netflix.

Cannes 2017 – Primeiro tapete vermelho

Hoje começou o Festival de Cannes 2017 e depois da estreia para a imprensa do documentário dirigido pela atriz inglesa Vanessa Redgrave sobre os refugiados na Europa, a noite lá teve o primeiro tapete vermelho com a estreia hour concours do filme Ismael’s Ghosts de um dos meus preferidos Arnaud Desplechin, com o elenco dos sonhos, Marion Cotillard, Charlote Gainsbourg e Louis Garrel.

Agora as lindas:

E mais cedo ainda teve pela cidade as deusas Marion Cotillard e Monica Bellucci.

136/365 THE LAST FAMILY

Mais um filme polonês pra lista do ano, mais um ótimo filme pro topo da lista, The Last Family talvez seja um dos filmes que melhor misture o que é documentário e o que é ficção, graças ao belíssimo trabalho do diretor Jan P. Matuszyński.

O filme conta a história real de um famoso pintor polonês, Zdzislaw Beksinski, que em 1977 sob a cortina de ferro, em um país fechado, onde ele se escondia de visitas casuais da Gestapo, vive em seu apartamento com a esposa Zofia, a base da família, sua mãe e sua sogra idosas. E seu filho, Tomasz, bipolar, depressivo, quase esquisofrênico, suicida, que acabou de se mudar para um apartamento sozinho, mas que circula pela casa.

O filme tem como base as gravações em áudio e vídeo que Zdzislaw fazia incessantemente de sua família em sua casa.

Ao invés de focar na fama e genialidade do surrealista, o diretor e o roteirista Robert Bolesto preferiram fazer um filme que se passa basicamente dentro deste universo familiar tão peculiar, já que como vemos durante o filme, essa família, como toda família, é bem singular, principalmente pelo modo como o pintor lida com esses ao seu redor.

Vídeos originais são usados durante o filme em meio a recriações de situações onde apenas o áudio tinha sido gravado e isso faz com que a noção de real (documentário) e ficção tenha um sentido novo.

Zdzislaw Beksinski foi um pintor tão perdido na “burocracia comunista” que quando ele recebe uma encomenda de 12 quadros para entregar em um ano ao preço de 12 mil dólares, acha que todos os seus problemas estão resolvidos.

Principalmente como lidar com seu filho Tomasz, que apesar de todos os seus problemas, era um dj conhecido, fazia festas e tinha programa de rádio, sempre com novidades de rock inglês (ah, como isso me lembrou da minha adolescência na mesma época por aqui, quando os discos importados eram raridade) e também virou um tradutor de renome, como vemos numa cena dele em uma sala de alguma faculdade dublando em polonês o novo filme do 007 ao vivo.

E o grande ator Star Seweryn é o que leva o filme a um outro nível, incorporando um Beksinski de uma forma que muitas vezes eu demorava alguns momentos para saber que era o ator em uma cena recriada à perfeição e não um vídeo original do pintor.

Lindo demais.

135/365 NEDS – JOVENS DELINQUENTES

Filmão de 2010 que só vi agora, Neds é um filme escocês que parece uma coisa e é outra (melhor) completamente diferente.

Neds parece uma comediazinha bacana sobre o gordinho bonitinho maior vítima de bullying na escola, em Gasgow nos anos 70, quando os professores ainda batiam nos alunos com uma espécie de palmatória de borracha.

Só que Neds é mais que isso.

O gordinho é de uma família da working class escocesa, da classe média baixa, uma família de trabalhadores, típica inglesa onde os pais ficam fora o dia todo e só percebem que seus filhos estão se fudendo tarde demais.

Como foi o caso do irmão mais velho do gordinho John, que foi expulso de casa e é um Ned, non educated deliquent, um delinquente sem educação, um hooligan, um adolescente já perdido, um tipo de um marginalzinho de gangue.

John usa da “fama” do irmão pra se livrar de perseguição vez ou outra e, à medida que vai crescendo, percebe que isso é algo mais valioso que apenas ir bem na escola com notas boas e estar na melhor turma (John nunca foi da 5a C, pra vocês terem ideia, sempre da A).

E o nerd aos poucos vai perdendo o R e virando um NED.

Quando o filme muda de tom e a comediazinha vira uma bela de uma comédia dramática de humor negro escocês fiadaputa, Neds cresce de uma forma absurda e vira um filmão da porra.

Escrito e dirigido pelo ótimo ator e diretor inglês Peter Mullan, muito desse sucesso se deve à escolha do elenco, principalmente a molecada da rua, com total foco em Conor McCarron, o gordinho cdf que cresce e vira mais que isso.

Seus dramas pessoais, seus dramas sociais, sua família toda cagada, seu pai abusivo, as oportunidades espúrias que vão aparecendo em seu caminho fazem de John McGill um personagem a ser lembrado, muito pelas decisões que ele toma, que me deixavam cada vez com a boca mais aberta à medida que o filme vai se desenrolando.

De novo, vivas para o diretor Mullan, um dos atores preferidos do mestre Ken Loach, aprendeu muito sobre direção de atores e direção de não atores também.

Filmaço.

133/365 THE LURE

The Lure é uma voadora no peito, com os 2 pés e gritando.

É um filme polonês sobre 2 sereias que quando na terra, viram cantoras de uma banda numa boate malucona nos ano 80’s.

Imagine a pequena sereia num filme de terror, sendo que ela faz sexo, fica bêbada, canta e é meio do mal.

The Lure é um musical. Só que também é uma comédia. Mas principalmente é um filme de terror. Bem bizarro, bem punk, tudo misturado.

A história começa quando uns bêbados vão para a praia numa madrugada cantar e 2 sereias aparecem e cantam para eles perguntando se elas devem ir para terra firme.

Daí já vemos as fofas, peladas e com pernas, no camarim da boate malucona, amparadas pela vocalista da banda do que deve ter sido a new wave polonesa. Quando o dono da boate, sentindo um cheiro forte de peixe, finalmente chega no camarim e vê as duas meninas nuas, percebe que eles não possuem nem vagina e nem ânus, ao que explicam que elas são sereias e para ele ver, jogam água em suas pernas que logo viram de volta os rabos de peixe enormes.

Elas são lindas, uma ruiva e uma morena, naturalmente sedutoras, cantam bem, obviamente, como toda sereia e começam a fazer backing vocals, só que elas são boas demais e já viram as queridinhas do lugar, viram cantores e stripers.

Só que no meio disso as coisas não são tão fofas e bacanas assim.

Primeiro que ninguém fica surpreso por elas serem sereias, é uma vibe bem normal, como se estivessem acostumados com isso.

No fundo elas que precisam se acostumar com o povo normal, comprar roupas e sapatos, aprender a se portar e principalmente, resistir a tentação de não estraçalhar e comer as pessoas, o que é bem difícil pra elas.

Fofas, né?

Elas encontram outro ser aquático que vive entre os normais e teve um chifre arrancado por um homem e de raiva arrancou o outro, tendo 2 cicatrizes lindas na testa.

Encontram uma policial locona que numa investigação se joga pra uma das sereias.

E uma delas se apaixona pelo baixista da banda, só que é avisada que se ela fizer a cirurgia de redesignação de perna, numa das cenas mais lindas do filme, ela vai perder a voz e virar espuma de água.

Depois de muita música, algumas piadas bizarras, um terror lindo, The Lure é  um filme coming of age, de amadurecimento, onde as sereias representam numa metáfora descaradas duas adolescentes entrando na vida adulta, tomando a primeira vodka, fumando o primeiro cigarro, fazendo sexo, menstruando, sofrendo abuso de adultos, mudando o corpo, exalando cheiros específicos, se apaixonando pela primeira vez e tudo mais a que tem direito.

Filmaço do mais estranho, que me deixou bem impressionado e meio de queixo caído com a ousadia da diretora, e minha nova ídola, Agnieszka Smoczyńska.

P.S. – desde 2015 quando li sobre esse filme que tento ver de qualquer maneira. Finalmente consegui, com a dica valiosa de um querido, procurando o torrent pelo título original dele. Sou lento de vez em quando.

128/365 SALT AND FIRE

Ai ai ai, Herzog.

O que dizer desse seu novo filme? Que tristeza.

Salt And Fire é um drama onde um equipe de cientistas é sequestrada por um empresário poderosíssimo, que é culpado por essa equipe de um desastre ambiental.

Só que nesse meio tempo um vulcão entra em erupção e os 2 lados juntam forças para salvarem o planeta.

Sim, pode rir.

A ideia é absurda de ruim, fantasiosa, besta e com a falta de delicadeza e mão pesada do diretor alemão, o filme não resiste aos primeiros 30 minutos.

Mal dirigido, com interpretações tristes e estapafúrdias de um elenco bem bom com Michael Shannon e Gael García Bernal, juro que eu fiquei na dúvida se o grande Herzog, que nos deu tantos filmes maravilhosos, realmente dirigiu essa porcaria.

Bom, esse post serve de indicação: passe longe, longe mesmo, desse filme.

Vola Aguirre, volta Kaspar Hauser, pelo amor do cinema.

PQP do dia: os novos Reeboks Alien.

Cataploft do ano!

Em julho a Reebok lançará 2 novos tênis de uma edição especial chamada Reebok Alien Stomper Final Battle.

Um deles é preto em homenagem à Rainha Mãe.

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O outro amarelo em homenagem a Power Loader, em homenagem ao filme Aliens de James Cameron de 1986.

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Olha essa embalagem que linda com os 2 tênis.

120/365 COLOSSAL

Antes de falar bem de Colossal, quero deixar claro que o cabelo de Anne Hathaway no filme talvez seja o pior cabelo da história do cinema de uma atriz.

Então já aviso que vai incomodar, mas vale a pena respirar fundo com a franja da fofa porque Colossal é uma bela de uma surpresa.

O filme conta a história de uma escritora bem locona (apesar do cabelo péssimo, mas acho que todo mundo conhece uma locona equivocada) que acabou de perder seu emprego , mora em NY com o namorado bonitão até que ele não aguenta mais e manda ela embora de casa.

Ela volta pra cidadezinha do interior onde nasceu e cresceu, vai morar na casa fechada de sua infância e reencontra o moleque com quem cresceu que ficou por lá e agora é dono do bar local.

Ela continua bebendo e apagando e dando seus vexames até que resolve trabalhar no bar para tentar melhorar de alguma forma.

Em um de seus apagões, ela acorda com o telefonema de sua irmã desesperada perguntando se ela viu o monstro que está destruindo Seul na Coréia do Sul.

Ela desesperada vai ver as imagens e percebe uma conexão entre ela e o monstro. E daí pra frente o filme fica bom demais.

O monstro apareceu pela primeira vez 20 anos atrás do nada quando ela ainda estava na cidade e agora aparece sempre quando ela vai em um lugar específico da cidadezinha dela.

Adivinha: a personagem de Anne é o monstro da Coréia.

A ideia do filme é bem absurda e bem boa. Bem boa mesmo. Daquelas originais de verdade, que nunca vimos antes (pelo menos eu não vi).

O diretor e roteirista Nacho Vigalondo, antes fez o ótimo Timecrimes e demorou pra fazer outro filme bacana com esse Colossal, primo irmão do também doidão Frank, que a gente tanto gosta.

Anne Hathaway, apesar do cabelo, dá um showzinho como a locona perdida, deprimidinha que encontra em seu monstro a forma de lidar com sua vida como nunca tinha imaginado.

Colossal é o tipo de filme onde as metáforas são tão óbvias e na cara e a mistura de fantasia com comédia negra funcionam tão bem que esse filme de monstro mais original dos últimos tempos que se eu estivesse nos anos 80’s ia dizer que esse filme já nasceu cult.

Lá se foi o gênio Jonathan Demme.

O grande diretor americano Jonathan Demme morreu hoje pela manhã aos 73 anos, de complicações cardíacas em sua luta contra um câncer no esôfago que vinha sendo tratado desde 2010.

Jonathan Demme talvez seja um dos maiores diretores americanos que não tenha tido o reconhecimento devido em vida.

O cara, que começou na produtora de Roger Corman nos anos 70 fazendo filme de bikers, revolucionou o documentário musical com Stop Making Sense, o filme/show dos Talking Heads que começa com David Byrne e um boombox no palco. Foda demais. Não só esse filme, Jonathan Demme fez muito coisa com música, dirigiu 3 docs sobre Neil Young, fez documentário do Justin Timberlake e dirigiu o clipe de The Perfect Kiss do New Order, apenas.

Demme fez pra mim um dos meus filmes preferidos dos anos 80, Totalmente Selvagem, o filme que lançou a musa Melanie Griffith e que eu assisti numa pré estreia linda de lançamento da revista Set em 1986.

Em 1991 Demme lançou um dos maiores filmes de terror de todos os tempos, O Silêncio dos Inocentes, um dos únicos 3 filmes a vencer os 5 principais Oscars: Filme, Diretor, Ator (Anthony Hopkins), Atriz (Jodie Foster) e Roteiro Adaptado. 2 anos depois lançou Filadélfia, o filme que deu o Oscar a Tom Hanks no papel de um gay portador de HIV, nos obtusos e preconceituosos anos 90’s.

Descanse em paz, mestre.