“Valsa Com Bashir” e a culpa.

Ontem fui assistir “Valsa Com Bashir” sem saber muito sobre o filme. Sabia apenas dos prêmios que vinha colecionando mundo afora, dos festivais onde tinha sido exibido e coisas do tipo. Ah, e que era uma animação, um documentário e que falava sobre guerra.

Bom, adoro esse tipo de situação, de ir assistir um filme sem muita referência a respeito. Daí o filme, nesse caso, é bom demais, e eu saí do cinema totalmente abalado. Num primeiro momento nem tinha certeza se tinha gostado do filme, porque seu final é uma paulada na moleira e tenho certeza que apesar do filme todo, ninguém espera pelo que vai acontecer. E o filme é bom demais e pronto!

A premissa de um documentário feito em animação me deixou animado, e acaba funcionando bastante. Ele conta a história de um diretor de cinema israelense que foi soldado do exército quando jovem e que depois de quase 30 anos não lembra dessa época de sua vida e tenta através de conversas com amigos e mais gente envolvida no conflito que suas memórias voltem de alguma forma. Ele entrevista seus amigos que na sua única memória estavam presentes ao seu lado, entrevista jornalista que cobria a guerra, entrevista oficiais do exército. Tudo isso pra falar de uma vergonha dessa guerra, um massacre onde provavelmente foram mortos mais de 3000 palestinos , sendo que deles, nenhum soldado, apenas mulheres, crianças e velhos.

Um pouco da história real: o Ministro da Defesa israelense na época, Ariel Sharon, criou um plano para ocupar o Líbano até Beirute e nomear seu aliado Cristão, Bashir Gemayel, para a posição de Presidente do Líbano. Sim, esse é o Bashir do título, e esse cara, eleito presidente, vira ídolo do povo mas logo é morto num atentado. Por isso os Falangistas Libaneses invadem esse campo de refugiados palestinos e por 2 dias, matam essas 3000 pessoas por vingança.

Bom, a tal da Valsa com Bashir é uma das muitas cenas lindas do filme, que com certeza só poderiam ser realizadas em animação mesmo, já que recriar um conflito desses fora de uma produção milionária seria totalmente inviável: uns soldados israelenses caem numa emboscada e ficam recebendo tiros e mais tiros dos palestinos, até que um deles começa um contra ataque, que segundo o diretor lembra, parecia que ele dançava uma valsa lenta e doida ao mesmo tempo.
valsa
Todo o filme, na verdade, gira em torno da culpa desses ex-soldados que não se lembram exatamente onde estavam, o que fizeram, como aconteceu de verdade. Culpa por não terem certeza se eles poderiam ter evitado de alguma forma o tal do massacre, culpa por não se lembrarem se eles poderiam ter percebido mais cedo o que os Falangistas estavam realmente fazendo naquele campo. E o mais doido de tudo, culpa por ter a sensação errada de que esses soldados naquele momento, poderiam ter vivido uma experiência quase nazista, e no caso do soldado/diretor, isso se aflora mais ainda porque seus pais estiveram em campos de concentração na Segunda Guerra Mundial. É incômodo até ver e ouvir esses caras, mesmo que cartunizados, tentando se justificar, tentando dizer que a culpa não era deles, que quem matava eram os Falangistas, que eles não sabiam o que estava acontecendo. Isso pra mim foi o mais impressionante do filme, a culpa, essa implacável, como ela exerce o poder que exerce e faz com que as pessoas “esqueçam” o que interessa, ou o que na verdade não interessa lembrar. E num caso desses, quando se dispõem a lembrar, sofrem de novo e de forma mais aguda.
Como o fim do filme me fez sofrer.

(esse post foi originalmente publicado na fase RRAURL deste blog)

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