‘Sangue Negro’, o épico por excelência.

Em seus dois últimos filmes, o gênio Robert Altman tinha sempre por perto um cara magrelo dando dicas (se é que isso fosse necessário) de onde colocar a câmera, de enquadramentos em relação a cenário e direção de arte. Era um assistente de direção, co-diretor, diretor de arte informal. Esse cara era o Paul Thomas Anderson, direto do filme americano mais importante dos anos 90, “Magnolia”. Só essa informação, do discípulo aconselhar o mestre, já é suficiente pra entendermos a importância e a relevância desse diretor que filma pouco, mas quando lança um filme, deixa todo mundo de quatro.
Claro que seu mais novo petardo, “Sangue Negro”, não poderia ser diferente. Mais uma vez ele faz um filme sobre obsessões, ódio, culpa, quase um filme católico, com morte, sangue, pai e filho (com a sombra de um espírito santo sempre rondando).
Altman em vários de seus filmes criava planos-sequência memoráveis, aqueles planos longos que sem corte, sem edição, com a ação acontecendo initerruptamente e a câmera passeando no meio dela. Anderson não faz esses planos como seu mestre, mas sempre em seus filmes cria situações de planos que não esperamos e que são quase como sonhos ou como se acontecessem fora do filme como em Magnolia quando o elenco todo canta a música linda de Aimee Mann. Nesse “Sangue Negro”, ele inicia o filme com silêncio total, contando a história através das imagens em movimento e de seus ruídos, sem uma palavra, só gritos e gemidos. É como se fosse um filme a parte, uma outra experiência. E o clima ali criado já nos mostra o que vem pela frente nas próximas duas horas.
Daniel Day Lewis, o melhor e maior ator vivo, é um explorador de prata e ouro nos EUA que acaba achando petróleo e com uma ganância sem precedente e com um faro ímpar, vai comprando todas as terras da região da baixa califórnia e criando um império de ouro e sangue. Ele mente, engana, manipula, é um homem tão obcecado que larga até seu filho no meio de um acidente pra tentar salvar um poço de petróleo. Usa seu filho, que não o é, pra ter uma fachada de homem de família, já que vai lidar com famílias pobres e modestas do interior com um “oceano de óleo” sob seus pés, sem saberem que o tem.
Outro destaque do filme é Paul Dano, o pastor fanático e ambicioso que vende as teras do pai sem saber da riqueza real dessas e acaba tentando criar um império com sua igreja e seus cultos de exorcismos como vemos direto nas tvs ainda hoje. O contraponto do personagem de Daniel Day Lewis, ao mesmo tempo que seu espelho, o pastor sempre presente é quase que uma cruz que o poderoso Lewis carrega e tenta não mostrar o quanto sofre por isso.
Nessa história, quanto mais ele tem, mais ele quer. Mais terra, mais óleo, mais dinheiro, mais desconfiança, mais poder. Ele brinca com tudo e com todos, brinca com a religião, com os fanáticos que encontra pela frente, manipula, faz o que quer e o que pode pra atingir seus objetivos. Já falaram que esse filme é a versão petrolífera de Cidadão Kane, mas eu ainda acho que “Sangue Negro” é quase uma versão da Bíblia, ou pelo menos dos 10 Mandamentos, de tanta culpa que flui pelo filme, tanto quanto petróleo.
PT Anderson é um diretor que sabe exatamente o que está fazendo e como está fazendo. Não sendo tão prolífico, por filmar pouco, ele é o tipo de cara que quando vai filmar, deve fazer tudo do jeito que foi milimetricamente planejado e só pára de filmar quando atinge o objetivo. E a gente enxerga essa perfeição toda na tela. Nível Kubrick, Hitchcock, obcecado e perfeccionista ao extremo.
O filme acaba sendo quase um filme de terror, com Lewis como o monstro que inferniza e martiriza a gente e a terra por onde passa, deixando um rastro de sangue mesmo.
Sequências memoráveis como o batismo de uma torre de petróleo onde ele descarta a ajuda do pastor local renegando o “deus” deles e tomando as rédeas do destino (trágico, claro) dali pra frente, ou a sequência que ele re-encontra seu filho depois de o mandar pra uma escola interna, num plano geral gigantesco, não dando a menor importância à reação do pai nem do filho, mostrando que isso é o que menos importa, porque a gente já sabe o que vem dali. Anda duas sequências memoráveis, o discurso final do pai e do filho já adulto, na sala do pai, quando o pai o renega (de novo!) é de tirar o fôlego.
E a sequência final na sala de boliche já fica pra história do cinema como uma das melhores decupagens de todos so tempos, com o maior clima de desespero, terror e drama, não necessariamente nessa ordem, onde o poder e a manipulação dão o tom de quem manda, quem pode e quem obedece, ou a síntese do pdoer do dinheiro sobre qualquer outra coisa, o pai de todos. Nessa sequência aparece a frase que já virou clássica, onde ele Lewis”, explica o que ele faz com uma comparação com o milk shake.
Tudo isso “adornado” pela direção de arte perfeita, pela fotografia esplendorosa escura, de muito contra luz e muito preto-petróleo e com destaque para a trilha impecável de Jonny Greenwood, o guitarrista do Radiohead, que criou canções/temas à altura de um filme que tem que ser visto e re-visto.
Uma aula de como contar uma história, que já foi reconhecido pra início de conversa em Berlim, onde ganhou os prêmios de direção, ator ,trilha e contribuição artística.
E o melhor de tudo ainda é ao final da sessão discutir o filme e ouvir opiniões tão relevantes e interessantes que me fazem ter certeza disso tudo que eu escrevi. E dessa vez nem era o Gil Bárbara ao meu lado!

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