OS INFILTRADOS (vintage post)


Não sei nem por onde começar a falar de “Os Infiltrados“, o mais recente filme do Scorcese. Tudo no filme é muito bom. Ele se cerca mais uma vez de todos os seus colaboradores, do fotógrafo e gênio Michael Balhaus a seu mais recente colaborador e pupilo com certeza e quase alter ego, Leonardo DiCaprio. E o cara rouba o filme. Num filme cheio de feras como esse, não é tarefa das mais fáceis. O filme começa e você vai vendo o elenco todo e fica só suspirando, porque só tem atorzão, e só atorzão bem dirigido, o que é melhor ainda. Ninguém deixa a desejar em momento nenhum do filme. Ninguém e nada do filme deixa a desejar.
Bom, a história é mais uma sobre máfia, dessa vez de Boston, com policiais corruptos, bandidos infiltrados, policiais infiltrados e tudo mais. Mas o filme na verdade é sobre confiança e respeito. E sobre mentira. E sobre como saber mentir muitas vezes é melhor do que mostrar confiança ou tê-la.
Jack Nicholson é o chefão da máfia irlandesa de Boston e educa um moleque pra ser policial e ser seu “rat” dentro da polícia dizendo tudo o que acontece pra ele. Esse moleque é Matt Damon que faz um policial mauricinho e bem perdidinho, muito bom. Só que ao mesmo tempo, a polícia pega outro moleque recém formado na academia e o joga no bando dos mafiosos pra ser o informante do outro lado. Assim o filme acaba sendo um jogo de cada lado saber que é o infiltrado, quem passa todas as informações pra outro lado. E assim mostra o quanto o caráter e a confiança e o respeito contam muito em todos os meios, mesmo com os bandidos e a polícia.
O filme inicia mostrando o quanto Nicholson manda na sua redondeza, o quanto é poderoso e o quanto faz o que quer. E no início não vemos seu rosto, mas sabemos que é ele, óbvio. Enquanto isso Scorcese vai nos mostrando como funciona o lado do bandido, como ele manda bater, como ele pega dinheiro, como ele paquera a filha adolescente do cara do mercadinho e como ele casa com ela alguns anos depois. E, principalmente, como ele escolhe o moleque que vai ser seu olheiro dentro da polícia. E só num momento crucial de divagação filosófica que Scorcese coloca luz no rosto de Nicholson, com a câmera de baixo, pra mostrar o quanto o cara nos intimida, o quanto o cara é maior que nós humanos.
Scorcese não deixa nada de fora de seu universo particular e tão familiar, os planos longos, os super closes, as cantinas italianas, o uso da lente bifocal com foco em primeiríssimo plano e lá no fundo em momentos cruciais, as mulheres como meras coadjuvantes que não ajudam nada o filme todo mas com passagens importantes nos momentos chaves do filme. E nesse caso, nesse filme em especial, uma personagem feminina importante, a psiquiatra, namorada de Damon e amante de Di Caprio, os dois pólos da história. A psiquiatra bobinha, romaticazinha, que acredita no trabalho social e que se deixa levar tão facilmente pelo inteligente bandido/mocinho Leonardo.
Lá pelo meio do filme, a história começa encaminhar por um lado meio que estranho pros padrões do nosso Martin, essa coisa de roteiros mirabolantes cheios de reviravoltas, tão em moda hoje em dia. Eu fiquei assustado que ele tivesse se enveredado por essa plaga, mas fiquei feliz demais com o final do filme, chocante e bem Scorcese, nem sei como pude duvidar que seria diferente.
O bom de um filme desses é perceber a força de um diretor fodão, que tem poder sobre o que faz, que faz do jeito que quer, que sabe o que quer e que por mais que tenha alguém atrás enchendo o saco como um produtor e tal, faz e faz direito. Cenas antológicas nesse filme são algumas que se unem ao rol de cenas absurdas de Martin e sua cinegrafia maravilhosa: sempre com Nicholson, primeiro com 2 mulheres em seu quarto, enchendo a mão de cocaína e jogando em cima de sua mulher, que está deitada na cama e mandando a outra cheirar e só parar quando ela estiver totalmente entorpecida. Parece filme de terror de tão tenso! Outra é quando Nicholson vai se encontrar com Damon num cinema disfarçado e tal e se vira, abre seu over coat e mostra um pau imenso preto, como se fosse um tarado. Assustador de novo. Outra cena bem animal é quando Nicholson vai falar com Di Caprio num restaurante, vem de uma sala do fundo com as mãos e a roupa cheias de sangue e pede um rodo, balde e muito pano. O personagem de Nicholson no final das contas parece mesmo um monstro de filme de terror, mas um monstro diferente do que constumamos ver em Nicholson antes. Ele finalmente nesse filme, quebra com seu estereótipo dos últimos anos do cara sarcástico, de óculos escuros, de roupa impecável e sorriso no canto da boca, desdizendo mais que dizendo. Desta ves, ele fala tudo. Ele pode tudo. Seu cabelo é desarrumado, seus óculos são feios, sua roupa é estranaha, ele usa jaqueta inglesa com gravata de onça, seus modos são refinados a ponto de desenhar muito bem, ao mesmo tempo que detona tudo com a maior rapidez e sem pensar muito. Ele é o malvado e o bonzinho, o cara que a gente odeio mas se sente atraído ao mesmo tempo, um cara fascinante mesmo, talvez um dos melhores personagens do cinema recente. E o mais bacana de tudo é que Nicholson é um cara generoso, não rouba a cena dos outros atores, a gente percebe que ele faz com que Di Caprio se sinta mais à vontade com ele pra fazer o que sabe fazer muito bem. Já Damon tenta, a gente percebe, mas não vai tão longe assim, apesar de tudo.
Imagino um pouco que essas histórias de máfia que Scorcese tanto gosta de contar sejam histórias da sua “máfia pessoal”, do mundo que ele cria a sua volta, de seus colaboradores, de seus atores, de sua equipe, e ele como o grande chefão disso tudo, às vezes se sujando de sangue, às vezes mostrando um pau grande pra mostrar quem manda. E no final sempre mostra que o cara é gênio, faz o que quer com o quê o cinema lhe proporciona e nos brinda sempre com um grande filme depois de outro.

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