O Labirinto do Fauno + O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias (post vintage)

Guillermo Del Toro é o cara. Nasceu em Guadalara, no México e conquistou o meu coração fantástico! Nascer em Guadalajara é tipo ruim, cidadezinha que não tem nada. Imagino ele moleque parecido com Ofelia, a menina protagonista do maravilhoso O Labirinto do Fauno que, no final da Guerra Civil Espanhola, muda-se com a mãe grávida para um moinho no meio do nada porque seu padrasto é um capitão do exército franquista com a missão de capturar uns últimos rebeldes escondidos na floresta perto do tal moinho. A menina não quer morar no meio do mato, muito menos com um pseudo-hitler como padrasto. Mas a mãe tá grávida, apaixonada e nada faz. Então a menina lê. Lê muitos contos de fadas, histórias fantásticas e imaginasse fora de lá. Ou melhor, usa essas histórias pra sair um pouco de lá. Já no caminho de chegada encontra uma fada/libélula que a leva a um labirinto de pedra abandonado perto de sua casa/moinho e lá Ofelia descobre um mundo que só ela pode ver e nele viver: ela é a reencarnação da princesa do submundo que tempos atrás resolveu, por curiosidade infantil, subir ao mundo dos vivos e assim se tornou uma mortal; rei, rainha, seus pais, esperam seu regresso, mas para ela provar que é a princesa, precisa realizar 3 provas sob a atenção do fauno.

Isso tudo na verdade é uma história a parte, a fuga da menina em meio ao inferno em que vive de soldados e tiros e explosões e da mãe que passa mal com a gravidez perigosa e do padrasto tirano. Enquanto ela pode, ela faz portas de giz e atravessa paredes, segue as fadas que agora têm a forma de um desenho de um de seus livros, corre de monstors com olhos nas mãos e ajuda a dor da mãe colocando sob sua cama uma erva que se parece com um feto que se move. Ofelia na verdade vive em seu mundinho, o mundinho das crianças, quase alheias à realidade à sua volta. E Ofelia não faz nada mais nada menso que tornar seu mundinho particular mais particular ainda e mais interessante ainda.

O filme é um primor em mesclar esse mundinho infantil e fantástico com as agruras de uma guerra quase que particular de um capitão doido e com sede e fome de poder. O pai/padrasto doido e sempre visto de baixo, dando medo com seus pelos saindo da camisa, a mão apática e frágil, sofrendo por causa do filho que o tirando “fez nela”. Prato cheio para as escpadas oníricas de Ofelia, a grande pequena atriz de 12 anos Ivana Baquero.

O elenco ainda tem 2 pérolas: o catalão Sergi López como o tirano capitão/padrasto, pra mim o melhor ator espanhol em atividade. E a ótima Maribel Verdu, atriz de Almodovar e do doidão genial Bigas Luna, que faz o papel da empregada do moinho que serve o capitão e na verdade é irmã do chefe dos insurgentes e sua espiã dentro da casa. Ela na verdade é a única adulta que tem um contato mais razoável com Ofelia, a menina, talvez por ser a adulta à mão que não sofre tamanha influência do capitão, a única com quem a menina pode conversar.

O filme é lindo, direção de arte primorosa no escuro da vida normal do moinho e nas cores e no barroco da viagem da menina pelo labirinto e seus mundos encantados. Del Toro sempre cria mundos absurdos em seus filmes, com destaque para Cronos, filme de 93 que passou aqui na mostra de cinema mas nunca entrou em cartaz nem saiu em dvd nem nada.

Nunca imaginaria esse filme sendo feito por aqui, com tanta história e tanto folclore nosso, falta ainda o diretor contador de casos fantásticos.Mas faço um paralelo desse filme com o ótimo O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias, do Cao Hamburger. Filme lindo com história muito bem contada sobre um menino de uns 10 anos de idade que em 1970, ano da copa, vai viver com seu avô no bairro judeu do Bom Retiro, em meio a um uundo diferente do seu na Belo Horizonte pacata dos anos 70. Seus pais somem por um tempo, fugindo do governo ditador e prometem ao filho que voltam para verem a copa juntos. A copa chega, o Brasil vence e os pais não dão notícias. Enquanto isso, o menino se adapta a esse novo mundo de velhos e crianças, de rezas e peixes no café da manhã. Ele conhece os moleques da vizinhança e brinca o quanto pode. Mas fica mesmo esperando o telefone em casa tocar para ter notícias dos pais. No Labirinto, a menina viaja para um mundo imaginário de fadas e mostros, fugindo dos monstros do dia a dia. No filme brasileiro, o menino se refugia no mundo da copa, onde afinal todos os brasileiros se refugiam e esquecem seus problemas a cada 4 anos. O único defeito do filme na minha opinião é o diretor querer aparecer um pouco demais e sua mão fica um pouco pesada em planos geniais através de espelhos e afins. Um pouco de humildade não faz mal a ninguém.

Enquanto isso, me divirto e viajo com filmes como esse Labirinto. Quero mais.

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