Estrela Solitária


Antes de mais nada, acho ridículo comparar esse filme com Paris, Texas. Só porque é Win Wenders, só porque inicia com um plano bem parecido, só porque também foi escrito pelo Sam Shepard, só porque também tem um pai e uma procura por parentes perdidos, não adianta comparar. Não poderia haver dois filmes mais diferentes um do outro.

O povo ama Paris, Texas, e na comparação, Estrela Solitária sai perdendo.

Injustamente.

Porque o filme é bem bacana: história bem contada, lindamente fotografado, trilha precisa com silêncios nos momentos certos, elenco de primeira com destaque para o próprio Shepard que além de escrever o roteiro faz um doido/bad (old) boy memorável e ainda tem a minha musa Jessica Lange, esposa de Shepard, fazendo uma ex-trepada do bad boy que 20 anos antes engravida dele e faz com que ele empreenda uma viagem em busca de suas raízes num momento de piração de vida.

Num momento de vacas magras cinematográficas como o que estamos vivendo, assistir um filme de um grande diretor já é uma dádiva dos céus. Quando é um filme do Wenders, ainda por cima, devemos ajoelhar no milho na sala de cinema. E quando ainda é um Wenders super insipirado nem se fala.

Fica claro o quanto diretor e ator principal estão em sintonia na história. A câmera de Wenders ama filmar Shepard; é como se o americano fosse uma extensão da alma do alemão, como se filmando Shepard, Wenders se mostra por dentro e por fora, como se o ator de seu filme estivesse ali como uma forma de mostrar como o diretor é na intimidade, como o homem sofre, vive, se emociona.

E nem estou dizendo que seja um filme autobiográfica, que seja uma metáfora, mas fazia muito que eu não sentia um amor tão incondicional de um diretor para com seu personagem principal e o quanto esse amor influencia na forma como é contada a história do bad boy pirado.

Cenas memoráveis do filme: o doidão/bad "cow"boy/ator Shepard trocando sua roupa e sua bota aparentemente caríssimas com um cowboy pobretão e saindo de meia pela estrada; a mãe do doidão (vivida lindamente pela gigante Eva Marie Saint) oferecendo biscoitos e leite para o policial Tim Roth, como sempre genial, que está atrás de seu filho fugitivo; o bad boy esperando horas sentado num sofá no meio da rua o seu filho perdido; o plano inicial do filme, que na verdade é um plano de um filme que está sendo feito dentro do filme; todas as cenas da Jessica Lange, velha, linda e mais linda e melhor atriz que nunca.

E para completar o tima todo, temos ainda a nova musa de Wenders, Sarah Polley, uma outra filha perdida do bad boy que ronda a cidade com suas memórias, uma urna funenária com as cinzas de sua mãe e um pen drive com arquivos de fotos e memórias de sua infância e do pai que só encotra agora. Polley, aliás, estrela do filme anterior de Wenders, o estranho Terra da Fartura, que passou por aqui só na Mostra.

E pra mim o único problema do filme é seu título em português, que apesar de ser bom, se referindo ao personagem principal, o título original é mais bacana, Don't Come Knocking, algo como "Não Chegue Chegando!" ou "Nem Vem Que Não Tem!".
Wenders, como sabemos, é um diretor de altos e baixos, mas pra mim, os seus baixos são sempre mais altos que a maioria do lixo que vemos por aí. Gosto dele porque é um diretor que não vive enfurnado num mausóleu vendo filme antigo, é um cara que sabe o que está acontecendo por aí, foi um dos primeiros diretores a fazerem experiências fílmicas em alta definição ao invés do negativo. É um cara que conehce música, e também sabe de rock, e recheia seus filmes com trilhas inesquecíveis. É um cara que ao mesmo tempo que faz um filme de anjos, faz um filme de um bad boy cocainômano.

O único problema é que faz menos filmes do que deveria.

Long live the king!

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