18/365 ESTRELAS ALÉM DO TEMPO

Depois de ver tanto filme bom e bem dirigido, resolvi assistir um meia boca pra variar, um desses que você sabe como vai ser filmado, como vai ser editado, com um elenco até bom e com uma história até interessante, mas que colocaram o Kevin Costner no meio.

Estrelas Além do Tempo, além do título ruim em português, é tudo o que eu disse aí em cima. O filme conta a história real até então muito pouco conhecida de 3 mulheres negras matemáticas que trabalhando na NASA em pleno início dos anos 60 não só sofriam lá dentro todo o preconceito mas que por uma reviravolta linda, acabam sendo as responsáveis pelo sucesso do primeiro vôo tripulado de uma espaçonave americana na órbita terrestre.

Ufa.

O filme é bacana até, conta essa história de cúmulo do preconceito onde mulher inteligentíssimas eram relegadas a segundo plano e tratadas como secretárias só por serem mulheres. E pior ainda, por serem negras, eram praticamente ignoradas daí não só pelos homens mas pelas mulheres brancas também.

A importância desse filme se dá menos por suas qualidades cinematográficas e sim por sua relevância política neste momento delicado onde Obama sai e entra o misógino Trump.

Um detalhe importante: o trio de atrizes principais, Taraji P. Henson, a oscarizada Octavia Spencer e a estreante nas telonas Janelle Monae estão ótimas em seus papéis de mulheres fortes, resolutas (empoderadas) e arrasadoras. Devem continuar recebendo glórias e prêmios pelo filme.

Hidden Figures, as figuras escondidas do título original, hoje em dia não estão mais escondidas e a última sobrevivente do trio foi condecorada pelo próprio Obama alguns anos atrás. Só que não sabemos o que o futuro reserva para o povo americano.

17/365 LA LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES

La La Land é antes de mais nada uma bela ode ao cinema.

Se você gosta de filmes, gosta de ir ao cinema, já deu um primeiro beijo numa sala escura, se já chorou, se emocionou, se irritou com um filme você vai gostar de La La Land.

La La Land se passa em Los Angeles (tá, não é nos anos 90), dividido pelas 4 estações do ano (numa cidade que é sempre quente e ensolarada) onde Emma Stone é uma aspirante a atriz que trabalha numa cafeteria dentro de um grande estúdio. Tão perto e tão distante de seu sonho, ela se realiza quando uma grande estrela entra para comprar um capuccino e vê sua ilusão sair pela porta da frente.

Ela vive a função dos testes onde ninguém presta atenção ao que ela diz, se ela diz certo, se está bem vestida: o que interessa pra esses produtores é pedir o almoço, atender o celular ou responder um mensagem.

Um dia ela por acaso entra em um restaurante e presencia um pianista tocando um jingle de Natal que se transforma numa digressão jazzística como ela nunca ouviu na vida. Só que por isso mesmo ele é despedido na hora e quando ela vai falar elogiá-lo, o pianista sai batido e nem presta atenção nela.

Ryan Gosling é o pianista que defende o jazz puro com unhas e dentes. Seu sonho é abrir um clube como nos velhos tempos.

Os dois sonhadores se reencontram, se conectam e seguem suas vidas juntos, um apostando no outro, um dando força pra outro até que uma hora suas vidas parecem melhorar só que não exatamente como eles previam.

La La Land é muito bem dirigido pelo geniozinho que nos brindou com Whiplash ano passado. Faz uns dias que assisti o filme e demorei de propósito para escrever para ter certeza se eu tinha curtido mesmo ou se não tinha sido só um rush de emoção ao final.

Tenho que confessar que o filme é bonitinho demais pra mim, coloridinho demais pra mim e ser musical me deixou com o pé atrás. Mas La La Land é um musical como os antigos de Hollywood, como os dos anos 50 filmados em Cinemascope, não esses da Broadway. E o filme tem alguns momentos muito anos 50 que me deixaram arrepiado.

Ryan Gosling está muito bem no filme, inclusive ele que toca piano nas cenas musicais. Todo o discurso dele sobre o jazz, sobre a morte de uma arte tão específica, parece querer dizer também sobre o cinema como o conhecíamos. Na verdade o texto fala sobre toda forma de arte de uma maneira meio radical, de amante absurdo xiita.

Mas quem brilha é Emma Stone: puta atriz boa, canta bem, dança bem e tem cara de gente boa além de tudo.

É lindo e triste.

O filme venceu os 7 prêmios que concorria no Globo De Ouro: melhor filme, ator, atriz, direção, canção, trilha e roteiro. Deve levar um monte no Oscar também.

E como vem dando certo, que a carreira do diretor Damien Chazelle seja longa e próspera, obrigado.

16/365 A CHEGADA

Se tem um elogio que posso fazer de cara ao filme A Chegada é que parece ser um ótimo filme do Ridley Scott.

Só que é um filme do Denis Villeneuve, o canadense que vem ganhando o mundo com filmaços sob a sua batuta que veio lá de trás, desde o fenomenal Incêndios até esse bom A Chegada.

E Dennis agora está em vias de terminar a continuação do Caçador de Andróides, o Blade Runner 2049, sob a produção de quem?

Ridley Scott, obviamente.

Voltando à vaca fria, A Chegada é um bom filme. Não é essa maravilha toda que estão querendo que seja com indicações a prêmios dizendo que o papel de Amy Adams é inesquecível.

Aliás, Amy pra mim é a filha da Regina Duarte de Hollywood, aquela atriz boazinha, bonitinha, certinha mas que não me desce como uma das grandes.

No filme ela é uma linguista que é chamada pelo exército americano para ajudá-los a tentar entrar em contato com uns alienígenas de um ovni estacionado no país. Um dos 12 ovnis estacionados pelo planeta.

Junto dela está Jeremy Renner, um físico que a ajuda com as traduções para decifrar a linguagem dos ets de sete pernas.

O clima é bom, tenso, ela está sempre com medo, sempre com um pé atrás. Mas eu acho que algumas coisas acontecem para que esse pé atrás acabe e mesmo assim não acaba.

Ela luta contra memórias de sua filha que fica doente e acaba morrendo, memórias essas que vão aparecendo sempre em momentos mais dramáticos e mais tensos do filme, que a fazem não dormir, que a fazem sofrer.

O ovni é o máximo, meio que uma concha sem gravidade por dentro, ou melhor, com a gravidade controlada pelos aliens e com uma parede de vidro que serve em princípio para separar os aliens dos humanos, já que eles ficam envoltos por uma névoa e usam a parede para escreverem com uma tinta que sai de seus tentáculos.

Só que: como que aliens tão fodões não entendem o que os caras falam com eles e demoram meses e meses e precisam de linguistas em 12 lugares do mundo pra conseguirem se comunicar?

Outra pergunta é um spoiler, então nem vou fazer, mas é o tipo de dúvida que sempre fico em filmes de invasão de aliens, pro bem ou pro mal.

O filme tem uma bela reviravolta de roteiro chegando no final, não de última hora como numa novela. E é boa a história, uma forma inteligente de resolver um monte de coisas. Mas não a pergunta do bate papo dos aliens com os humanos.

De qualquer maneira, vale a pena. A direção é boa como sempre, a vibe do Ridley Scott é a melhor de todas, e a identidade de Villeneuve de muito close com desfoque tá no filme todo. Um ponto alto é ainda a trilha do meu preferido de hoje em dia, o islandês Johan Johansson. E claro, a fotografia é impecável num roteiro bem amarradinho.

Isso tudo pra confirmar que o filme é bom mas não é esse hype todo que estão vendendo por aí, o que de qualquer maneira, hoje em dia já é uma grande coisa.

15/365 CLOSET MONSTER

Lembra 10 anos atrás quando todo mundo amou o canadense C.R.A.Z.Y., sobre um adolescente descobrindo a vida e a sua sexualidade?

Temos hoje um sucessor à altura, o lindinho Closet Monster.

O filme conta a história de Oscar, um adolescente que vive com seu pai, depois que sua mãe saiu de casa e por isso usa de toda a sua imaginação pra ter uma vida não tão difícil, principalmente por causa desse pai que é muito intenso, por assim dizer.

Oscar faz de tudo para conseguir sair de sua cidadezinha e se afastar de sua família e ir morar sozinho em NY: faz maquiagens de monstro em sua melhor amiga e em seu pai, constrói uma casa na árvore e o mais legal de tudo, ele tem um rato de estimação que é meio que sua voz da razão, seu grilo falante e o rato tem a voz da Isabella Rossellini.

O monstro do armário do título, que eu achava que fosse a sexualidade de Oscar, na verdade são as roupas da mãe que o pai não deixou que ela levasse 10 anos atrás e os traumas de infância. Oscar tenta fazer com que as coisas sejam mais fáceis pra ele de uma forma ou de outra mas seus pais não cooperam, sua amiga não coopera, ele começa a trabalhar e o emprego não coopera até que ele conhece um  um colega de trabalho e aparecem as borboletas no estômago.

Closet Monster é bem lindinho mesmo e Connor Jessup, o Oscar, é um ótimo ator com um brilhante futuro pela frente.

14/365 HOLY HELL

Imagina uma comunidade meio hippie, moderna, só com gente linda, sarada, inteligente e interessante.

Essa comunidade começou lá nos anos 80 e era liderada por um cara que era todo modernão, sarado, que usava sunga e ray ban e isso era o que fazia com que seus seguidores acreditassem que ele era um deles e não um guruzão velho e barbudo.

Esse cara falava o que as pessoas queriam ouvir, do jeito que eles entendiam, sem firulas. Esse cara poderia ser o irmão mais velho desse povo, um amigão inteligente e iluminado. Esse cara era o mentor, o psicólogo, o psiquiatra, o curandeiro desse povo todo.

Era o cara que fazia umas coisas na floresta que fazia com que os seus discípulos lindos sentissem como se eles estivessem numa viagem de LSD sem que tivessem tomado nada, só com o poder vindo das mãos do mestre.

E isso tudo durou mais de 22 anos, até que um dia…

Esse é o começo de Holy Hell, um documentário dirigido por Will Allen, que passou 22 anos como o braço direito do guru e aproveitou para registrar a história desse grupo e mostrar que não, eles não eram uma seita.

Essa semana falei  de Tickled, um documentário que me abalou profundamente.

Holy Hell talvez tenha me abalado mais ainda principalmente por perceber e ver documentado como as pessoas podem ser tão ingênuas e tão manipuláveis.

Os EUA são a terra dos serial killers e dos atiradores doidos e das seitas e cultos. Holy Hell mostra como funciona por dentro uma dessas seitas, como funciona a tal da lavagem cerebral, como uma pessoa carismática pode fazer o que quiser com um grupo que em princípio é formado por pessoas não ignorantes.

E não, não estou falando dos crente e da igreja universal e afins, mas poderia muito bem.

Quem sabe um dia.

Ah, e Holy Hell também está na Netflix. Corra.

13/365 CHRISTINE

Eu nunca tinha ouvido falar de Christine Chubbuck, uma jornalista de uma pequena estação de TV da Florida, nos EUA que em 1974 ficou bem conhecida por um ato ousado que cometeu ao vivo durante seu quadro no jornal local.

Quando li sobre o filme a primeira vez, no primeiro parágrafo já falavam o motivo da fama da repórter. Mas acho mais interessante ainda não saber, como não sabemos mesmo, e assistir esse filme, um drama de terror pode-se dizer, que me deixou de boca aberta por 2 horas.

A jornalista é vivida pela sempre boa Rebecca Hall (quase que irreconhecível caracterizada) que nos mostra como a jornalista feminista e ferrenha Christine, com todas suas ideias libertadoras e vanguardistas para um canal de tv pequeno, sofri no seu dia a dia.

Com 29 anos de idade, virgem, morando com a mãe, com dores estomacais que a aterrorizavam o dia inteiro, Christine tentava (e conseguia) em sua reportagens mostrar de uma forma peculiar, o lado menos conhecido da peculiar vida americana.

Apesar de seu chefe e dono da estação cobrar dela matérias mais “populares”, com mais apelo para o espectador comum, ela não se conformava e tentava de todas as maneiras deixar a sua assinatura em tudo o que fazia.

Ela não tinha amigos, nem seus colegas de trabalho conseguiam que ela socializasse com eles; seus dias eram casa e trabalho e de volta pra casa quando ligava um rádio e ouvia o canal da polícia atrás de furos de reportagem.

Mas a vida dela era cada vez mais difícil, sua mãe arruma namorado e ela acha que é pra provocá-la, sua mãe fuma maconha e ela acha que também é uma provocação, seu companheiro de tv recebe uma promoção pra trabalhar num canal maior e ela fica arrasada e assim vai.

O clima do filme é criado a partir de muitos planos sequência, planos longos e sem cortes onde às vezes não vemos com quem uma personagem conversa mas que faz com que criemos uma intimidade quase bizarra com essas personagens mostradas. Além disso, a direção de arte e fotografia, com uma cor de anos 70 e a direção de atores é das melhores.

Filme indie com cara de indie que eu tanto gosto, aclamado em Sundance com muitos elogios à atriz e ao diretor Antonio Campos, que é filho do jornalista Lucas Medes do Manhattan Connection, uma das promessas de diretores americanos segundo várias publicações recentes.

12/365 A CRIADA

A Criada, um dos meus filmes preferidos dos últimos anos, é a nova porrada na cara do diretor coreano Park Chan-wook que já nos brindou com a trilogia da vingança onde “Oldboy” é o principal desses 3.

Chan-wook adaptou o livro cuja história se passa na Inglaterra vitoriana para a Coréia dos anos 30 (quando ocupada pelo Japão e onde os velhos aristocratas tentavam de tudo para serem “mais japoneses”) para contar sua história de submissão, sexo e obviamente violência, mas não como já vimos em seus outros filmes.

A Criada conta a história onde um desses aristocratas cria sua sobrinha muito rica para que seja sua esposa e usa sua paixão por livros eróticos para educá-la. A criada do título chega na casa deles como parte de um plano de um conde truqueiro para fazer com que a sobrinha e herdeira se apaixone por ele e então ele a interna em um manicômio e fique com a herança dela.

Só que a criada não contava que se apaixonaria pela mulher e por isso tenta fazer com que o plano inicial mude.

O filme conta a história através de pontos de vista diferentes e, como não poderia ser diferente em um filme do coreano, as reviravoltas de roteiro são o máximo. Sexo, fetiche, violência, submissão, mais sexo, reviravoltas, A Criada é um filme obrigatório.

A Criada é o filme mais deslumbrante do ano: a direção de arte (onde temos figurinos, locações, maquiagem, cabelo, objetos) e a fotografia do filme são com certeza duas das personagens principais do filme. Muito da história, do sexo,  da sedução e até do terror do filme se devem ao que vemos nos enquadramentos precisos do fotógrafo de sempre de Chan-wook, o também coreano Chung Chung-hoon.

O diretor diz que tentou contar a história de amor entre a herdeira e a criada de uma forma que não parecesse um velho tarado filmando sexo porque senão ele seria o próprio tio da herdeira em cenas que ele recebe dinheiro de outros aristocratas que vão ver e ouvir a sobrinha ler os contos eróticos numa sala de leitura deslumbrante da mansão.

O roteiro do filme me deixou muito impressionado com as reviravoltas e com as nuances de personalidade das personagens principais e a forma como o diretor usa no filme é primorosa. A edição do filme é precisa dando um ritmo peculiar para cada ponto de vista que a história é contada.

Coisas de um diretor em talvez seu auge criativo, o que eu achava sinceramente que teria sido o velho e bom Oldboy.

A Criada entra hoje em cartaz nos cinemas e assistir todo esse deslumbramento em tela grande é um prazer. Recomendo imensamente.

Um detalhe: a cena mais animal do filme na minha opinião, é uma cena que a criada, ao dar banho na herdeira, tem que “lixar” um de seus dentes que está trincado e a machucando. E eu acabei de ler que foi a parte do livro que fez com que Chan-wook tivesse vontade de adaptar para o cinema.

Detalhe 2: o filme tem uma subjetiva absurda em uma cena de sexo que até agora estou aplaudindo de pé o diretor.

11/365 SALA VERDE

Puta filme esse Sala Verde.

Mas antes queria explicar: Sala Verde é um título estúpido em português porque o original, Green Room, quer dizer camarim.

Assim sendo, esse terror bom demais se passa num camarim de um bar de rednecks neo nazistas, os alt-rights americanos.

Uma banda punk que está viajando numa van e tocando onde consegue, para nesse bar pra um show onde são bem mal recebidos, obviamente.

Ao final, indo pro camarim (ou pra sala verde que nem é verde), a banda presencia um assassinato e a partir daí precisa lutar pela sua vida.

Dirigido pelo ótimo e promissor Jeremy Saulnier, que também é o roteirista do filme, diz a lenda que durante as filmagens a tensão no set chegou a níveis quase insuportáveis fazendo com que algumas vezes as diárias terminaram antes do previsto pra que todo mundo relaxasse um pouco.

Se isso é verdade ou só marketing não sei, mas que sentimos essa tensão e medo e terror toda nesse filme que é nervoso demais, isso é verdade.

Imagina um terror com bom roteiro, ótimo elenco e uma ótima direção de atores: é esse Sala Verde.

E além de tudo isso, o líder dos neo nazista é o ótimo Patrick Stewart.

O filme é tão bom que passou na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, feito bem peculiar pra um terror americano.

Só uma correção: meu amigo Marco Correia leu aqui e me lembrou que eu não falei nada da trilha que é uma barulheira só. Tem Slayer, Obituary, Napalm Death, Bad Brains e daí pra baixo. Foda!

10/365 ELLE

Elle é O filme do momento.

Na verdade, tem sido o filme do momento desde sua primeira exibição em Cannes ano passado. Quando eu li que em competição estaria um filme dirigido pelo Paul Verhoeven, estrelado pela Isabelle Huppert sobre estupro com uma puta cena polêmica, achei que seria o filme do ano.

Qual não foi minha decepção quando assisti a primeira vez, depois de ficar todo dia procurando um torrentzinho pra ver a obra.

Tudo o que todo mundo elogia no filme é o que me decepcionou.

Na sinopse, uma mulher é estuprada e acaba tendo uma relação estranha com o fato, primeiro não denunciando o caso e depois procurando seu algoz para resolver o problema de uma forma não ortodoxa. Ok, gostei, interessante, parece. Uma mulher fodona que resolve se vingar com as próprias mãos, foi o que eu supus.

Ao ver o filme, o roteiro mostra que na verdade não é bem isso. A relação dessa mulher com o homem que a violentou é bem peculiar. Ela suspeita de uns homens e tenta descobrir quem é o tal do cara, ao mesmo tempo que recebe ameaças, que tentam fazer bullying com ela e ela lida com isso tudo, de novo, da forma mais peculiar possível. Vingança, paciência, escolhas, ironia, poder feminino.

Isso me desconcertou um pouco. Não acredito em uma mulher que seja pragmática o suficiente pra resolver uma situação tão extrema como um estupro de uma forma tão tranquila. Claro que você pode estar pensando: ah, mas existem mulheres assim, não podemos generalizar em nada. Eu sei que existem, mas eu infelizmente não consigo acreditar nisso. E daí o filme acabou virando meio que uma piada pra mim.

A personagem de Isabelle é uma executiva super bem sucedida, mora numa puta casa, tem uma empresa de video games famosa, amigos, família, um filho doidão, mas é meio estranha, meio irônica, meio calculista ao ponto mostrado no filme. A força da mulher podendo escolher o que fazer com seu corpo mesmo em situações limites com um estupro diz muito do filme mas esse não é um problema e sim uma das poucas  coisas do filme sendo a outra coisa boa o ator principal, Laurent Lafitte.

Mulheres que já viram o filme me ajudem, tô muito errado em pensar assim?

Não sou de dar spoilers e não vai ser aqui eu vou começar a ser, mas há momentos no filme que eu achei tão forçados na relação dela com o estupro (e com o estuprador, pra falar a verdade) que eu achei que no meio do filme o diretor resolveu mudar a história pra que ela fosse mais surreal talvez e aí foi.

História meia boca, direção meia boca, personagem besta com cara de quem tá bêbada o filme todo, não rolou pra mim mesmo. E só pra deixar claro, tudo isso que acho de Elle é o que uma grande parcela da crítica elogia no filme.

Talvez o filme seja uma bosta (como eu também acho) para o juri de um festival como Cannes, onde entrou como o grande filme em competição e saiu sem prêmio algum, mas seja um grande filme para o mercado americano quando ganhou domingo passado o prêmio de melhor filme de língua não inglesa no Globo De Ouro e Isabelle Huppert ganhou o prêmio de melhor atriz. (achei o máximo ela ganhar melhor atriz, merecidíssimo desde vários anos, mas não por esse filme). E com esses prêmios, agora é um grande candidatos ao Oscar. Aguardemos.

Pra não dizer que sou tão chato, logo vou falar de outros 2 filmes absurdamente bons com La Huppert.

E Paul, apenas melhore.

 

9/365 Amor e Amizade

Filme do ano passado que eu demorei pencas pra ver, Amor e Amizade é o tipo de filme com um hype enorme que eu não consigo entender.

Mais um filme inglês baseado na obra de Jane Austen, uma comédia daquelas que parece aquelas peças de teatro que um sai de cena e o outro fala daí o primeiro volta e entende errado e é uma enrolação só.

Nesse caso, Kate Beckinsale é uma viúva falida nos anos 1800’s tentando arrumar um marido rico pra filha adolescente. Ela é daquelas mulheres manipuladoras, dissimuladas que fazem de tudo para conseguir o que quer.

O filme é baseado na única comédia escrita pela Jane Austen que foi publicada só depois de sua morte pelo conteúdo ousado para a época, o da protagonista ser uma viúva forte e manipuladora, que faz o que quer com os homens ao seu redor.

O filme é bonito, filmado em locação em casas/palacetes maravilhosos, com uma bela direção de arte e figurino e com um elenco ótimo mas a historinha é tão bobinha que parece plot de novela das 6 da tarde que se passaria no interior com um milionário engraçadão e tapado vivido pelo Otavio Augusto e que quer de qualquer maneira se casar com a adolescente linda vivida pela Camila Queiroz e com a Elisabeth Savalla e toda trupe engraçadona.

Vale a pena pra ver a mulher forte como personagem principal de uma história que causou escândalo na Inglaterra vitoriana. Mas assista numa sessão despretensiosa pra não precisar prestar tanta atenção sem ter o perigo de perder algo importante do filme.