143/365 IRMÃ

Um filme que começa com uma citação de Marilyn Manson só pode ser bom, certo?

Irmã é uma comédia dramática, bem dramática, que conta a história de uma menina que foi uma gótica heavy metal adoradora de Gwar e que se maquiava como Manson na adolescência e que resolve ser freira e se afastar de sua família após um evento traumático.

Um dia ela recebe um email de sua mãe dizendo que seu irmão está voltando da guerra, depois de sofrer queimaduras absurdas.

Depois de 3 anos num convento sem contato com sua família, ela vai reencontrá-los e para se reconectar com o irmão, vai lembrando da adolescência que se foi.

O filme é meio bobo até, se pensarmos na história rasa de menina revoltada adolescente que se desliga da família e um dia volta a encontrá-los.

Só que o diretor e roteirista Zach Clark não deixa por menos e coloca camadas e mais camadas de dramaticidade e veracidade em cada personagem do filme, mostrando que as pessoas crescem e mudam. E no caso de Clark, ele gosta de mostrar as mudanças na pele de seus personagens, nada de sutilezas.

Nenhum deles está no filme só pra fazer volume; a consistência e a profundidade de cada um deles resvala e interfere na história dos outros. É lindo ver isso num roteiro em princípio bobo mas que vai crescendo e crescendo e se tornando um filme lindo e fofo e profundo ao mesmo tempo.

Só pra terminar, a grande surpresa do filme é a mãe vivida pela sumida Ally Sheedy: maconheira, drogada, doidona, e super mãe, tudo junto.

Super recomendo.

142/365 A INTROMETIDA

Não sei quem me indicou esse filme que tinha deixado de lado quando lançado (queria lembrar pra xingar rs).

Assisti outro dia e achei bonitinho mas ordinário.

A Intrometida é Susan Sarandon, uma mãe super super super protetora e intrometida e chata mesmo.

Sua filha (a super estimada Rose Byrne) mora em Los Angeles e a mãe, depois da morte do marido, vai atrás dela e tadinha.

Liga o dia inteiro, manda mensagem o dia inteiro, vai na casa da filha sem avisar, tem a chave, entra sem bater, incomoda mesmo e sempre que pode entra na vida da filha, saindo com as amigas dela, dando dinheiro a torto e a direito, perdidona e carente mesmo.

Não entendi muito o propósito do filme, pra ser sincero, não é uma comédia de riso rasgado, não é um drama de chorar, tipo um Laços de Ternura, não é nada.

Eu fui ficando de bode da mãe de tão inconveniente que ela é.

E na verdade bode do roteiro por mostrar o quanto o povo se faz de besta e usa e abusa da mulher carente, mesmo que dando a impressão que uma ajuda a outra.

E pra piorar, nem a Susan, nem a Rose e nem o super coadjuvante J. K. Simmons estão bem no filme, todo mundo tá meio canastrão demais.

Minha teoria sobre um recadinho do Lynch no novo Twin Peaks.

Ontem estreou a terceira temporada de Twin Peaks, a série de tv mãe de todas as séries de tv que tanto gostamos hoje em dia.

Pra quem como eu (véio) assistiu e ficou chocado com a série quando estreou 20 e tantos anos atrás e passava na Globo nas madrugadas de domingo pra segunda feira, ver os novos episódios de Twin Peaks hoje na Netflix, um dia depois de passarem nos EUA é um presente dos deuses da tv (ops, desculpe aí Neil Gaiman).

O episódio começa com a sempre fofa Laura Palmer na sala vermelha falando de trás pra frente só que não para o agente Cooper que eles se encontrariam 25 anos depois e bingo, cá estamos 25 anos depois do último episódio da segunda temporada.

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Deu um aperto no coração ver uma sequência linda e inédita da Log Lady vivida pela atriz Catherine Elizabeth Coulson, falecida em 2015.

Mas o que me chocou, e acho que todo mundo, foi a morte do casal de “novinhos”.

E pra mim essa morte me pareceu um recadinho de David Lynch, que se foi mesmo, nunca saberemos porque o cara nunca fala nada de sua obra, ele diz que tudo se reponde por si mesmo e pela interpretação do espectador.

Bom, um jovem de uns 20 anos está trabalhando num galpão lindão e seu trabalho é observar uma caixa enorme de vidro, rodeada de câmeras gravando por todos os lados, onde ele de tempos em tempos troca os cartões de memória com as gravações.

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Eis que uma outra jovem vem lhe trazer café e, sem o segurança na porta, entra no galpão que não poderia ter entrado. Os dois se sentam e observam a caixa.

Ele diz que tem que prestar atenção para algo que possa acontecer e diz que nunca viu nada, mas que a pessoa que trabalhou antes diz ter visto, mas ele não sabe o quê.

Eles trocam olhares, começam se beijar, tiram as roupas até que a caixa vai sendo tomada por uma espécie de fumaça negra e na fumaça aparece uma criatura (obviamente) bem estranha, com corpo de mulher mas com o cabeça não definida.

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A criatura arrebenta uma das paredes de vidro, saindo da caixa e indo direto pra cima do casal e os estraçalha em uma das piores (melhores) mortes de Twin Peaks.

Agora vai minha teoria besta: a caixa de vidro é a televisão; o casal é a molecada de hoje em dia que se senta em frente às neflix’s da vida e ao invés de prestarem atenção vão se pegar; o monstro bizarro e disforme e impiedoso é o próprio Twin Peaks que volta pra fuder com a parada toda.

Viagem demais?

141/365 ANTES QUE EU VÁ

Antes Que Eu Vá é uma adaptação de um livro sucesso entre a molecada que conta a história do dia de uma patricinha chata de uma escola americana e suas amigas populares com todos os clichês que já vimos em 50 outros filmes.

Só que esse dia se repete e se repete e só ela percebe esse dia da marmota particular.

A premissa é boa: e se hoje fosse o único dia do resto da sua vida?

E essa repetição faz com que ela enxergue sua vida por uma outra perspectiva e tome decisões, algumas bem radicais, que ela nunca tomaria em sua vida normal.

O filme é uma mistura de O Feitiço do Tempo (Groundhog Day) com As Patricinhas de Beverly Hills e uma boa pincelada de Donnie Darko, que dá o pouco charme do filme.

O filme tem um roteiro quase bom, com poucos furos até,  já que num caso desses de muitas idas e voltas e mais voltas poderia acabar com a vida de qualquer roteirista. Mas o que me incomodou foi uma regra básica de volta no tempo: geralmente não se podem tomar decisões tão radicais imediatamente, você tem que mudar o curso do destino bem sutilmente. E o que falta nesse filme é sutileza. As decisões acontecem muito apressadamente e o que poderia ser bonito de se ver construído aos poucos, acaba sendo nos jogado na cara onde devemos engolir à força o que estamos assistindo.

Fora a Jennifer Beals, que faz a mãe da menina e uma outra atriz adolescente que fez a série horrorosa da Drew Barrymore morta viva da Netflix eu não conhecia ninguém do elenco, o que me deixou intrigado, com uma vibe indie num filme grande. Funcionou bem.

Neil Gaiman + Nicole + Cameron Mitchell + Elle = filme do ano.

How to Talk To Girls At Parties é um conto bem bom do Neil Gaiman onde uns aliens caem na Inglaterra nos anos 70 e viram punks. Ou mais ou menos isso.

John Cameron Mitchell, o gênio que criou Hedwig adaptou o conto e ontem lançou o filme em Cannes.

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As críticas estão sendo ótimas e até o meio do ano devemos ter o filme pra ver.

O elenco é animal: Nicole Kidman, Elle Fanning, Alex Sharp, Ruth Wilson, Matt Lucas, Joanna Scanlan, Elarica Gallacher.

E a trilha é dos meus preferidos Matmos.

140/365 PATERSON

Hoje um amigo veio me perguntar o que eu tinha achado de Paterson e eu percebi que não tinha escrito sobre o filme.

Falha minha de deixar de fora da minha lista um dos grandes filmes do ano.

Paterson é o nome de um motorista de ônibus que escreve poesia em seus momentos de folga e mora também na cidade de Paterson.

Ele leva uma vida bem tranquila, casado, tem sua rotina de acordar, toar café, ir trabalhar, volta pra casa, conversar com a mulher, leva seu cachorro para passar e para no bar para uma bebida antes de dormir.

E no meio disso tudo, escreve.

Observa.

Ouve.

Tentar colocar no papel as vidas que por ele passam e que sutilmente vão deixando marcas.

Sua mulher insiste para que ele mande seu caderno de anotações para alguma editora e ela reluta, diz que não está pronto, até que o destino toma conta de sua obra.

Paterson é vivido pelo ótimo Adam Driver, o feioso mais talentoso dos EUA, saído da porcaria que era a série Girls pra ganhar as telonas. Já fez Guerra nas Estrelas, Silêncio do Scorcese e esse petardo do Jim Jarmusch.

Sim, dirigido pelo mago indie Jarmusch, o filme é lindo, calmo, poético, tranquilo, com um ritmo totalmente peculiar e próprio e nos dá uma aula de cinema contemplativo em tempos de super heróis explosivos.

139/365 CATFIGHT

Catfight é um filme com uma premissa bem besta e “normal” (olha as aspas) que acaba sendo um belo de um estudo da natureza humana, de como a falta de comunicação e de tolerância são nocivas.

O filme, o cúmulo da comédia de humor negro, conta a história de 2 mulheres, que descobriremos, foram amigas na faculdade, se distanciaram e se encontram 20 anos depois no auge de suas vidas adultas.

Uma delas, Sandra Oh, é casada com um empresário que ganha dinheiro com as guerras que os EUA participam, tem um filho que quer ser artista e ela o proíbe, tem uma vida confortável com um belo apartamento e casa nos Hamptons e bebe vinho um pouco demais e dá uns vexames.

A outra, Anne Heche, é uma artista plástica que não deu certo, não vende nada, não tem dinheiro e é uma grossa com todo mundo, principalmente com sua assistente.

Casada com uma banqueteira (Alicia Silverstone), um dia vai trabalhar como garçonete em um evento, encontra a ex amiga e discutem o porquê da separação das duas quando começa uma briga absurda entre as duas, a tal catfight do título.

O que acontece daqui pra frente é tão inesperado que um filme desses com um roteiro desses tendo sido realizado e exibido é uma bênção dos deuses do cinema.

Não, o filme não é genial, maravilhoso, a salvação do filme americano, mas Catfight tem um roteiro tão surpreendente quanto Um Cadáver Para Sobreviver, por exemplo.

São esses filmes do indie americano de verdade, como principalmente Moonlight, que me fazem ainda ter esperanças que um dia a gente chega lá.

Daft Punk sem capacete em Cannes.

Thomas Bangalter, um dos robôs do Daft Punk na verdade não é um robô!

Como assim?

Ele esteve ontem a noite na sessão oficial de abertura do Festival de Cannes, ao lado de sua esposa, a fodona Élodie Bouchez.

Ele é o cara meio careca, meio cabeludo, de óculos na foto, ao lado de Élodie.

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Bom, repensando o que escrevi antes, parece que Thomas é um robô sim. Enquanto as pessoas nesse vídeo, sua esposa e até Adrien Brody se movem, Bangalter fica duro que nem respira.

138/365 FIQUE COMIGO

Ah, as comédias francesas.

Fique Comigo é uma daquelas comédias que você acha que estão super bem encaminhadas e de repente, BAHM!, cai um astronauta no telhado e o filme só melhora.

Passado em um prédio na periferia de Paris, o filme começa com um problema de condomínio: o elevador precisa ser reformado.

Todo mundo topa, menos o morador do primeiro andar que diz que não precisa usá-lo e que por isso não quer gastar dinheiro.

Os condôminos resolvem que vão arcar com a parte dele mas que o figura não pode usar o elevador. Até que no outro dia ele sofre um pequeno acidente e tem que ficar de cadeira de rodas por um tempo e por isso, o que mesmo? Ele precisa usar o elevador escondido.

Mas esse é só o começo do filme, que dita o tom de Fique Comigo, uma comédia de humor negro, ou de um humor tipicamente francês, adulto, de canto de boca. E a partir daí as outras personagens que moram no prédio vão aparecendo: uma atriz de cinema que tem que explicar sua carreira pro moleque vizinho amante de cinema e não a conhece, o cara de cadeira de rodas que finge ser fotógrafo famoso porque se interessa pela enfermeira do hospital onde ele vai toda noite pegar comida; a mulher que mora sozinha e que cuida, sim, do astronauta americano que caiu no telhado do prédio que só fala inglês e se comunica como pode com sua anfitriã.

Historinhas boas que acontecem no mesmo lugar, o prédio, com aquela vibe que a gente gosta de filmes do Altman, de herói coletivo, sem personagem principal e com uma bela lição de uma estrela como Isabelle Huppert no meio disso tudo como a atriz solitária e mais a minha preferida Valeria Bruni Tedeschi e Michael Pitti.